Opinião: Coimbra – o bom e o mau de uma cidade adiada

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José Augusto Ferreira da Silva

1. No passado dia 11 teve início a bienal Anozero’17, acontecimento de grande relevo no plano cultural do nosso país e com importantes referências a nível internacional. A capacidade da entidade organizadora, o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), o prestígio do curador, a elevada qualidade dos artistas e das obras, a estreita ligação ao património pelo uso de espaços públicos da cidade pouco conhecidos ou acessíveis e no caso do mosteiro de Santa Clara-a-Nova praticamente ao abandono, mostram bem o que é possível fazer em Coimbra e de Coimbra. Durante quase dois meses vai ouvir-se falar, com justiça, de Coimbra um pouco por todo o lado. A cidade deve, por isso, saber corresponder a este desafio, tudo fazendo para que ele se perpetue, cada vez com maior qualidade e impacto.

2. O caminho aqui percorrido traz responsabilidades acrescidas à Câmara Municipal de Coimbra no que concerne aos equipamentos municipais dedicados à cultura e às artes. Impõe-se que, ao fim de quase dois anos, se dê um rumo coerente ao Convento São Francisco, definindo claramente o que dele se pretende, quem o vai gerir e em que condições, quem vai programar a sua atividade cultural. Exige-se que seja posto termo urgente ao caminho errático que vem sendo seguido. Do mesmo passo, neste novo ciclo político, embora com repetição dos responsáveis camarários, exige-se que se arrepie caminho no que toca à relação sectária e prepotente com que se tem olhado para os agentes culturais que gerem espaços municipais, designadamente a Escola da Noite e Centro de Artes Visuais (CAV), permitindo que estes cumpram, em condições adequadas, o serviço público em que se têm distinguido.

3. A cidade continua a assistir ao amarelecer do painel colocado na fachada de dois edifícios na Rua da Sofia, anunciando a “via central”. Nada que surpreenda. A teimosia da maioria que liderava a Câmara no momento de aprovação deste crime urbanístico, com o apoio do PSD e CDU, ignorou que, apesar de tudo, ainda existem algumas leis a que têm de se submeter, por mais que não gostem… Lamentavelmente, sabemos que se imporá a vontade política da maioria e que o crime se concretizará. Ainda que não haja “metro”, nem o bizarro “metrobus”, e apenas se destine à passagem de trânsito comum. Ao lado de ruínas que persistem numa baixa moribunda, sem que se vislumbre qualquer vontade séria de reconstrução.

4. Os históricos troleicarros estão desaparecidos, há meses, da nossa cidade. Seja devido à incompatibilidade com a inqualificável rotunda do Arnado, ou devido à degradação da rede e da frota, seja, como me parece, pela conjugação dessas razões o certo é que é mais um sinal negativo do desconserto que reina, há anos, nos SMTUC e que não se vê que haja vontade política de ultrapassar. Irremediavelmente perdido um sistema de mobilidade ligeiro de superfície, vulgo metro mondego, resta uma rede urbana de transportes desconexa e com uma frota envelhecida, o que é mais uma expressão dolorosa de uma cidade adiada.

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