Opinião: À Mesa com Portugal

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Olga Cavaleiro

Parece que somos mais felizes quando o Outono se veste de amarelo, laranja e castanho. Até o sol parece refletir na sua luz a continuidade da vida e é lindo ver o momento exato do cair da folha e como o sol a torna translúcida, quase invisível, quase a ser esquecida. Essa folha irá desaparecer, entrelaçar-se na terra, morrer na humidade do Inverno para renascer na Primavera em muitas e mais folhas. É o fim de um ciclo que gostamos, como sempre, de celebrar da melhor maneira. É o fim do ciclo agrícola, é o amarelo e o laranja das abóboras, o castanho das castanhas, das avelãs, das nozes, é o vermelho seco de cor intensa das romãs, é o lindo laranja dos diospiros, é o vermelho vivo do vinho novo, é o amarelo, ora mais pálido, ora mais ardente da geropiga. Somos mais felizes no Outono porque celebramos as colheitas, os frutos que a terra deu e o trabalho de todos vivido em comunidade.
Certos de que o solístico de Inverno se aproxima a passos largos e, em breve, a natureza vai adormecer numa suspensão do tempo em que a geada queima a terra e os mãos de quem a trabalha celebramos a abundância da cor e do sabor do Outono. Trocamos em grandes mercados, partilhamos com os amigos e vizinhos, aproveitamos toda e qualquer oportunidade para entrar na adega e provar o vinho ou a geropiga roubando à cozinha lembranças do Outono.
Nem sabemos porquê, mas adoramos as broinhas dos Santos. Chega a esta altura e invade-nos uma fome de broinhas. Feitas com a polpa de abóbora, pouco doces que os tempos antigos não eram pródigos em açúcar, mas a compensar, carregadinhas de frutos secos desde as nozes, os pinhões e as passas, satisfazem a nossa gula de as comermos acompanhadas por uma bebida quente ao calor de um brasido, ainda que, imaginário.
É o aconchego do Outono que tem tantos cheiros, tantos sabores, tantas cores e nos deixa tão felizes. Se calhar nem nos apercebemos porque gostamos tanto do Outono. Nem percebemos que essa é uma felicidade que herdamos dos nossos antepassados mais longínquos. Habituados a viver ao ritmo dos ciclos agrícolas celebravam esta estação certos da dádiva recebida da natureza. E nesta celebração não esqueciam os seus mortos, mas alimentavam a relação entre os presentes e os ausentes, ora pedindo, na noite de 31 de Outubro fazendo da abóbora candeia apara alumiar a noite escura, os bolinhos e os bolinhos pelos “finados que estão mortos e enterrados à porta da vera cruz”, ora deixando uma mesa farta e plena para os mortos participarem do festim outonal.
Eram tradições lindas que mostravam como o alimento invade a nossa vida, mais do que necessidade, transforma-se em ritual e faz-nos viver em comunidade, até com os que já partiram, mas que sem dúvida, continuam a fazer parte de nós. Isto era assim, e assim continua, pois a civilização e a ciência trouxe-nos muita coisa, mas ainda não conseguiu transpor o inexplicável da morte e explicar o sentimento da saudade, da esperança da continuidade, da linha umbilical que nos liga ao nosso passado e nos ajuda a saber quem somos.

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