Opinião: Curativos rápidos para o problema das urgências

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Inês Rosendo

Ao longo dos últimos anos, e ainda mais em épocas festivas e de férias, se tem debatido a questão das urgências hospitalares e da espera excessiva que se faz sentir nesses serviços.

São múltiplos os fatores responsáveis por esta espera, desde a afluência excessiva e desadequada em relação aos objetivos destes serviços até à escassez de recursos para corresponder a essa procura. Em relação a estes últimos, poderíamos voltar a falar nos cortes orçamentais na Saúde e, logo, nos recursos tanto físicos como humanos que acabam por escassear nos hospitais aumentando a pressão para fazer mais atendimentos com menos profissionais escalados e pior material.

Poderíamos falar no descontentamento que isto gera, como desmotiva os profissionais de continuarem a trabalhar mais e mais horas extra e como esta pressão leva ao burnout. É importante trabalhar a gestão dos recursos hospitalares sabendo encontrar o equilíbrio entre o que motiva os profissionais e a gestão racional de recursos.

Mas, hoje, focar-me-ei naquilo que é o outro lado da equação: a afluência aos serviços de urgência hospitalar. É legítimo que qualquer cidadão procure, quando está doente, o serviço que pensa ser melhor para si, obtendo uma reposta rápida e eficaz (e ajustada ao seu orçamento).

E, neste momento, infelizmente, em muitos casos, é no serviço de urgência de um hospital que o consegue. Por um lado, porque nos hospitais existe alguma preocupação em ter um atendimento rápido para situações simples, que em termos de financiamento hospitalar são rentáveis, tendo uma escala com médicos só para estes atendimentos. Mas, por outro lado, porque as pessoas não encontram essa resposta no centro de saúde.

Governos sucessivos têm vindo a dizer que a “culpa” é dos centros de saúde e, para o resolver, fazem normas obrigando a que todas as pessoas que a eles recorram sejam atendidas no próprio dia ou isentando de taxas moderadoras as pessoas que a eles acorram e tenham de ir depois ao hospital e até incentivam a criação de USF em que as equipas, mais autónomas e motivadas, possam fazer mais atendimentos. Mas não se preocupam em resolver o problema que está por trás de toda esta dificuldade em atender as pessoas com doenças agudas no próprio dia no Centro de Saúde.

Bastaria estar um dia com um médico de família e observar: Ao longo do dia, a quantidade de tarefas a fazer e serviços a prestar pelo médico de família não cabem sequer no seu horário. E não há nada mais angustiante do que pensar que há algum utente seu que está doente e que não o conseguirá atender.

Mesmo ficando depois da hora, mesmo pedindo ajuda a quem possa estar mais livre nesse dia, mesmo deixando os papéis “para depois”, para horas extra nunca pagas nem compensadas, não é possível continuar a fazer tudo o que fazem os médicos de família e atender as pessoas doentes quando precisam e com a rapidez que gostariam. Faltam meios técnicos nos centros de saúde sim, é certo. Mas falta também tempo.

Ou são médicos-dos-papéis-e-justificações-para-tudo-e-mais-alguma-coisa (como as que agora criaram para os idosos que tomam mais do que 5 medicamentos) ou são médicos a quem as pessoas possam acorrer quando estão doentes. Ou são médicos de 1800 ou 1900 pessoas sem muito tempo para as ver (quanto mais escutar!) ou são médicos de menos pessoas para dar mais a quem precisa.

Não é assim tão difícil resolver estes problemas nos centros de saúde. E, sem essa resolução, não findam os problemas das urgências hospitalares, nunca. Não podemos continuar a fazer “curativos rápidos” para resolver problemas complexos.

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