Opinião: Comunidades resilientes, catástrofes e vivência traumática

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João Redondo

Na sequência da presente catástrofe associada aos incêndios na região centro do nosso país, parece-me importante abordar/reflectir o conceito de “comunidade resiliente” e a sua importância na promoção da saúde e bem estar das populações.

O texto “Characteristics of a Disaster – Resilient Community” ( 2009 ) de John Twigg (Version 2, UCL Hazard Research Centre) serviu de base ao desenvolvimento do conceito neste artigo.

Quando falamos de comunidades resilientes, falamos de comunidades que perante uma situação de crise dispõem de competências que (idealmente) lhes permitem:

– antecipar, minimizar e “absorver” os potenciais stresses e / ou o impacto de forças destrutivas;

– gerir / manter estratégias e estruturas básicas durante a ocorrência de uma catástrofe; e

– reconstruir-se / recuperar-se após a adversidade.

Como sublinha John Twigg perante um contexto de ameaças (naturais / humanas) uma comunidade resiliente — mais do que concentrar-se nas vulnerabilidades, impactos e tensões associadas à crise — procura através de um conjunto de estratégias / acções fazer o melhor por si própria, minimizando as suas vulnerabilidades e concomitantemente fortalecendo as suas capacidades.

Atendendo a que as comunidades não existem isoladamente, o seu nível de resiliência é também influenciado pela qualidade dos vínculos que mantém com a sua rede de suporte, regional / nacional.

Outros factores protectores estão associados à sua capacidade para a gestão dos serviços (exs.: emergência, sociais, administrativos) e infraestruturas públicas.

Constituem áreas temáticas fundamentais para a avaliação da resiliência de uma comunidade:

– a governança, tema transversal a todas as áreas;

– a avaliação de risco;

– o conhecimento e educação;

– a gestão de risco e redução de vulnerabilidades, e

– a preparação e resposta à situação de crise.

O impacto da vivência traumática associada à presente catástrofe terá tanto melhor prognóstico quanto mais resiliente for a comunidade.

Tendo em conta as áreas anteriormente referenciadas à resiliência e colocando o enfoque no papel dos Serviços de Saúde no reforço desta, não posso deixar de sublinhar todo o trabalho que tem sido desenvolvido ao nível da prevenção/intervenção pelos Cuidados de Saúde Primários da região, pelo Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e pelo Departamento de Saúde Pública / ARS Centro.

O trabalho em rede, multidisciplinar e multissectorial que vem sendo desenvolvido (Serviços de Saúde, Forças Armadas, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, etc.), assente numa perspectiva de saúde pública e num modelo de leitura e compreensão do “problema” multinível (do micro ao macro), tem contribuído para a implementação de soluções realistas, adequadas às reais necessidades das populações expostas a esta catástrofe.

No global, estamos perante comunidades que, face à catástrofe, têm desenvolvido estratégias fomentadoras de resiliência, essenciais à promoção da saúde e bem estar das populações.

2 Comments

  1. Sardinha says:

    Caro João Redondo,
    Agradecendo as suas deambulações conceptuais, entre as quais as relativas a conceitos como resiliência e toda a panóplia já conhecida e que lemos nas dezenas de Handbooks que pensamos sempre estar a preparar-nos como melhor sabemos para a intervenção clínica, e em particular em situações de crise, e renovando o agradecimento pela presença física dos técnicos que têm estado a trabalhar em proximidade com as populações envolvidas nos eventos traumáticos recentemente ocorridos, reiteramos que mais do que MODELOS e CONCEITOS associados ao assunto que o ocupa neste artigo de opinião, e não considerando despicienda a sua utilidade não somente em contexto de LABORATÓRIO, as populações gostarão de ver um pouco de colorido às terras que por desígnio alheio à sua vontade, lhas tornaram abruptamente cinzentas e quase monocromáticas. O colorido de fora também ajuda o viço que é imprescindível que haja dentro. Pelo que todas as vindas à região que tragam cor, seja da de dentro dos que vêm de fora, seja a de fora, trazida pelos que vindo, logo a trazem dentro, SERÁ UMA VERDADEIRA BENÇÃO. Os silenciosos, que não gostam de interagir, poderão trazer VASOS DE FLORES, de preferência de espécies robustas e com RAíZES, em franca concordância com a robustez dos exemplares! Se for preciso, peçam apoio para saber quais as melhores opções, ao Centro de Ecologia Funcional da UC.

  2. Salgueiro says:

    Venho por esta via, pedir ao Senhor Doutor João a sua ajuda.
    Gostaria de ter uma consulta com o Senhor Doutor.
    Tenho 57 anos, nasci com o lábio purpuro ou rachado, e um buraco no céu da boca, mas fui operado quando tina 3 anos, onde apanhei o maior choque da minha vida, que foi a minha mãe deixar-me só com 3 anos de idade no hospital de Santa Maria de Lisboa.

    Espero de receber notícias do Senhor Doutor.
    Os meus melhores cumprimentos

    Manuel Salgueiro

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