Futuro do Festival das Artes passa pela internacionalização

Posted by

Música, magia, artes plásticas, cinema, literatura, gastronomia e serviço educativo fazem a programação do 9.º Festival das Artes na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, a decorrer de 15 e 23 de julho. Em entrevista ao DIÁRIO AS BEIRAS, Cristina Castel-Branco, diretora do Festival das Artes, assume a internacionalização como meta.

O Festival das Artes assegurou o reconhecimento nacional, com a adesão do público, e conseguiu também, entretanto, o reconhecimento internacional com o “selo europeu de qualidade”?

Para nós foi muito importante este reconhecimento internacional – “Remarkable Festival” no biénio 2017 e 2018, pela European Festivals Association –, porque é sempre mais difícil de atingir. E também porque este festival nasceu com o apoio da Secretaria de Estado do Turismo e depois ganhou asas sozinho, sem qualquer apoio central, mas sempre com o apoio da Câmara de Coimbra e também da Caixa Geral de Depósitos, que foram os nossos grandes pilares e nos permitiram passar de um festival pequenino, quase familiar, para o evento que temos hoje.

Intrinsecamente ligado à Fundação Inês de Castro?

O Festival das Artes nasceu na Fundação Inês de Castro e mantém-se como uma das suas atividades de fôlego, para além do prémio literário e das diversas intervenções com as escolas, em que se faz a celebração da figura de Inês de Castro. Mas o Festival das Artes é uma celebração mais vasta da cultura em geral, com o objetivo principal de atrair as pessoas a Coimbra e a um espaço muito especial que é a Quinta das Lágrimas. Depois há ainda iniciativas como os passeios no Basófias, as exposições no [Edifício] Chiado e no Museu Machado de Castro, os eventos na Casa da Escrita e em Santa Clara-a-Velha.

Sítios que são, para além da Quinta das Lágrimas, um pouco do itinerário do festival pela cidade?

Exatamente. O festival tem o seu núcleo forte na Quinta das Lágrimas, onde a Fundação Inês de Castro tem a sua sede, com a gestão dos jardins e da mata, a paisagem de Inês e de Pedro, como função importante. A partir deste núcleo, todos os anos vamos correndo e descobrindo novos vários espaços na cidade de Coimbra que são extraordinários.

Uma cidade que, entretanto, viu o seu centro histórico classificado como Património da Humanidade. Isso é importante para a afirmação internacional do Festival das Artes?

O festival teve início ainda antes, mas nós vimos na cidade – e eu integro o ICOMOS, como membro especialista em paisagens culturais da UNESCO –, um potencial enorme que depois se concretizou no crescer do interesse internacional por Coimbra, através da candidatura e, depois, na entrada na lista de Património Mundial.

Era importante potenciar o festival também através desta particularidade feliz de Coimbra estar classificada Património Mundial?

Talvez ainda não tenhamos feito toda a divulgação internacional que seria necessário fazer nesta área, sobretudo porque não temos meios para dizer lá fora que este é um festival que ocorre numa área património mundial.

Falta um apoio maior do Turismo de Portugal?

Sim. Nós no início, nos primeiros três anos, como disse, recebemos apoio financeiro da Secretaria de Estado do Turismo, que depois deixamos de ter. Ficamos sem qualquer apoio do Estado e, naturalmente, gostávamos de voltar a ter esse apoio. Nós já demonstramos que somos capazes, agora precisávamos de ter mais meios para convidar artistas que custam mais dinheiro. É apenas o que falta, tudo o resto nós temos. Gostaríamos de ter capacidade para poder convidar artistas como o Jordi Savall, a Maria João Pires, os grandes maestros.

Nomes que poderiam atrair o tal público internacional que interessa ao Festival das Artes e a Coimbra?

Exatamente. O nosso futuro passa por conseguir mais apoios para que seja possível internacionalizar mais este festival, uma das coisas que o selo de qualidade dos festivais europeus nos diz. Mas para isso nós precisamos de apoio.

Fica um apelo às entidades com responsabilidades nessa área para o apoio a um festival que se realiza fora de Lisboa e do Porto?

Fora de Lisboa, fora do Porto e fora do Algarve, as três regiões que habitualmente beneficiam com essas apostas. Nós estamos no Centro e a região Centro teve uma capacidade de resposta à crise muito efetiva. E esta é uma região com uma riqueza enorme do ponto de vista turístico. Portanto, faz todo o sentido estar a fazer deste um festival mais conhecido internacionalmente.

Uma riqueza que o país teria toda a vantagem em explorar da melhor forma?

Sim. E não é necessário juntar rigorosamente mais nada a essa frase.

Esta nona edição do festival será marcada por um cariz solidário muito concreto?

Foi uma proposta do José Miguel Júdice no dia imediato à tragédia dos incêndios em Pedrógão Grande que a direção do festival e a Câmara de Coimbra aceitaram de imediato. São dois concertos os que vão integrar esse cariz solidário. No concerto da pianista Irina Chistiakova, a 19 de julho, às 21H00, na Quinta das Lágrimas, metade da bilheteira irá reverter para o apoio às vítimas dos incêndios. No concerto da Orquestra Clássica do Centro (OCC), no dia 22 de julho, às 21H30, também na Colina de Camões, 300 bilhetes serão oferecidos pela Câmara Municipal de Coimbra a todos os que sofreram e sofrem ainda com os incêndios.

A arte espaço de solidariedade e de humanidade?

Quando podemos, através da arte, aliviar alguns dos embates que sofremos na vida, isso é muito importante. A arte é e será sempre uma saída segura para podermos reconstituir o nosso espírito e a nossa humanidade.

Quer deixar alguns destaques para esta edição?

É sempre difícil, porque é sempre injusto para os que não se referem. Mas posso dizer-lhe que, por razões várias, nomeadamente pela estadia da artista na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, este ano, Adriana Calcanhotto fará um concerto desenhado, pensado e todo estruturado para a Quinta das Lágrimas. Portanto, será, certamente, um momento especial. O Luís de Matos fará também um espetáculo de magia no centro do lago da Colina de Camões. E depois, teremos a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a Orquestra Clássica do Centro, que tem sido uma presença constante, dirigida desta vez pelo maestro Andrew Swinnerton, que integra a direção do festival, o que é uma boa coincidência.

Há ainda os eventos fruto das parcerias que o festival tem cimentado na cidade?

Faria aqui especial eco da parceria com a Casa da Escrita, com o regresso do escritor Mário Cláudio, que vem até nós e nos dá aulas de como escrever, de como pensar, tratando temas com muita graça e leveza, ao mesmo tempo que passa mensagens fortes do ponto de vista da sensibilidade e da articulação das ideias na sua escrita que é tão produtiva. Temos também um destaque especial, na Quinta das Lágrimas, o ciclo da gastronomia, que se constitui como um momento em que os chefs Miguel Laffan e Rodrigo Castelo, farão as “Metamorfoses à Mesa: de Aquém e Além Tejo”. Há ainda “Uma pitada de magias… Na cozinha do chef Dias”, um workshop de gastronomia para pais e filhos com o chef Vítor Dias e o mágico Luís Rodrigues, no dia 21 de julho. Depois, vamos ter também Mário Laginha, uma presença muito importante no Festival das Artes, foi ele e Bernardo Sassetti que inauguraram, em 2008, a Colina de Camões, com um concerto que reuniu 600 pessoas.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.