Opinião – Qual é coisa qual é ela que tem duas bossas e não é um camelo?

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Bruno Paixão

 

As duas bossas nacionais (não que Portugal seja um Camelo), Lisboa e Porto, disputaram a deslocalização da Agência Europeia do Medicamento para o seu território, dado que o Brexit ditou que esta deixará em breve de ter a sua sede em Londres.
A discussão foi estéril, a bossa de Lisboa é bem maior do que a do Porto. Ganhou a primeira. Mas entre as duas, naquela imensa cova, fica o resto do País, esquecido, tolerado, racionado. Esta cova funciona como um vasto deserto, árido, fastidioso e estéril, por onde passam os espólios do Estado ao fazerem a travessia entre o sul e o norte.
A Agência Europeia do Medicamento é uma porta giratória por onde passam milhares de peritos, organizações internacionais, indústria e outras instituições. Emprega centenas de trabalhadores qualificados e toma decisões essenciais sobre a saúde dos europeus.
O Governo, goste-se ou não, tinha duas variáveis para a escolha da cidade portuguesa a candidatar-se a receber a Agência Europeia, tendo optado por Lisboa devido a esta ter no seu território o Infarmed (agência nacional do medicamento) e também para fortalecer uma futura candidatura a receber a Escola Europeia, que precisa de alcançar o número mínimo de funcionários das instituições europeias, necessário para a instalação da referida Escola.
Compreendendo os argumentos do Governo, é também preciso reclamar mais ambição e proatividade por parte das regiões, pois não se pode apenas ficar a assistir a este ondular entre bossas sem exigir políticas efetivas de descentralização. E, já agora, onde está o Presidente da República, que tem reiteradamente opinado sobre tudo e sobre nada, que se desdobrou em agradecimentos de tomada de posse precisamente em Lisboa e no Porto, mas parece evitar falar sobre a descentralização efetiva e pragmática, podendo exigir que esta saia do papel e que produza efeitos concretos na vida real do País e de toda a população que vive no deserto, ou seja, naquela espécie de vazio entre as duas bossas?
É pernicioso concluir que uma Agência deve ser sediada num território como Lisboa apenas porque esta cidade já conta com várias outras coisas, e assim justificar a pertinência de lhe adicionar mais umas quantas. Até porque, no limite, este círculo vicioso apenas conduz ao fatídico e irremediável empobrecimento de tudo o resto, alimentando a faminta capital, para quem todos os impostos de um País inteiro não chegam…
Devíamos seguir o exemplo de outros países que não fixaram todos os centros de decisão nas respetivas capitais, diversificando-os no território. Falo de países próximos de nós e em contexto europeu, como a Alemanha, a Holanda, a Itália, a Suécia, a Finlândia, a República Checa ou Malta, apenas para dar alguns exemplos.
Em Portugal, se nos quisermos dirigir ao Tribunal Constitucional, teremos de ir a Lisboa. Se o assunto for com o Tribunal de Contas, teremos de ir a Lisboa. Mas se for com o Supremo Tribunal de Justiça, teremos de ir a Lisboa. Já se for com a Procuradoria-Geral da República, teremos de ir a Lisboa. Se quisermos assistir a uma sessão plenária do Parlamento, teremos de ir a Lisboa. Se precisarmos de agendar uma reunião com um qualquer ministério ou secretaria de Estado, teremos de ir a Lisboa. Se precisarmos de protestar junto da Autoridade da Concorrência, teremos de ir a Lisboa. Se tivermos de ser ouvidos pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social, teremos de ir a Lisboa. Com a ANACOM, teremos de ir a Lisboa. Se o tema estiver relacionado com a ASAE, teremos de ir a Lisboa. Se tivermos de fazer uma consulta na Biblioteca Nacional, teremos de ir a Lisboa. É preciso continuar?
Voltando à Agência Europeia do Medicamento, não entendo a razão de não se ter trabalhado a possibilidade de a sediar em Coimbra, tida como capital da saúde, com a particularidade de ter um dos mais importantes centros hospitalares do País creditado a nível internacional, com uma universidade de referência mundial, com investigação e cursos ligados à saúde, com várias patentes na área do medicamento. Não percebo como não temos canais de diplomacia política e económica em favor da região. E o facto de não termos aeroporto não pode ser um fator desfavorável, pois já demorei bem mais do centro de Londres ao aeroporto de Stansted do que por vezes demoro de Coimbra ao aeroporto Sá Carneiro.
Não partilho do aproveitamento que alguns partidos fizeram deste tema, até porque estiveram calados a observar a festa, sem contribuírem com uma única ideia, e vêm agora agitar as canas caídas. Isso não nos tira do deserto. Isso lança-nos ainda mais nele.

3 Comments

  1. Hélder Pastilha says:

    Qual é coisa qual é ela que tem duas bossas e não é um camelo?
    Humm… Uma bela mulher com dois voluptuosos seios, sob o olhar lúbrico de um macho imbecil, dado que um macho desta índole nasceu manifestamente incapacitado para o discernimento?
    É isso?

  2. Hélder Pastilha says:

    Agora a sério, Sr. Bruno Paixão…

    Acredite que é muito melhor estar no deserto, do que na segunda circular ou no IC19, em hora de ponta.
    Acredite que o bom exemplo de outros países que optaram pela distribuição dos centros de decisão por várias cidades do seu território, tais como Alemanha, a Holanda, a Suécia, a Finlândia, e outros, sendo comprovadamente bom, porque na prática observa-se eficaz, dificilmente funcionaria na pátria lusitana dadas as qualidades dos párias regionais. E digo-o com conhecimento de causa, de lá e de cá. O viciamento das virtudes morais e éticas dos morubixabas regionais portugueses incompatibiliza-os para a implementação de uma descentralização operosa. Se observar bem a sua cidade, supondo que é Coimbra e não a Figueira da Foz, ou outro burgo do intermezzo nacional, o que constata? Exemplo pragmático e costumeiro: A Sr. P., esposa extremosa do Sr. M., conhece o Sr. Director V., junto do qual faz a intercessão pelo seu marido M., para que este, o Sr. Director V., o nomeie para responsável de uma instituição que ainda não existe, mas que virá a existirá propositadamente para criar o cargo para o Sr. M., que no entender da Sra. P., sua extremosa esposa, manifesta uma propensão preocupante para a claudicação familiar. Entretanto, a Sra. P., filha do Sr. X.P., com o aval do patriarca X.P., e por intermédio deste, obsequia o Sr. Director V. com uma vaga para o seu filho na Instituição C.H.U.. Deste modo, o Sr. Director V. vê o seu filho colocado e encaminhado em C.H.U., e a Sra. P., com a claudicação do marido, o Sr. M., coarctada.
    Entretanto, o Sr. M., agora feito Sr. Director M., e um assumido carreirista inveterado, viaja amiúdes vezes até ao outro lado do globo, malogrando a expectativa da Sr. P., de o ver sentado quieto a seu lado e dos rebentos entretanto vingados, ocasionando ao fim de uns quantos anos, um cisma marital.

    Sr. Bruno Paixão, atente na sua região, que será também a minha, e diga lá se não é o que mais há.
    Mas olhe que o último pormenor, era nada mais do que uma reparação fantasiada, ao trincafiar do Sr. M. 🙂

  3. O Carbonário says:

    Infelizmente, a corrupção na província – cujas autarquias bem o demonstram – é demasiado incontrolável para se poder proceder à regionalização. Mais vale ter a corrupção centralizada, que, ao menos, sabe-se onde está – o que, mesmo que não seja útil para os tribunais, é-o ao menos para os jornais.

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