Opinião: Decisões que queimam

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Rui Lopes Rodrigues

A dimensão da tragédia que assolou Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos é avassaladora. Quer pela sua dimensão, quer pela rapidez com que surgiu e evoluiu. Mas também o é, sobretudo, pelo que tem de inaceitável.

No momento em que escrevo este texto, ainda não será o tempo adequado para tirar muitas ilações, pois ainda nada está devidamente apurado. Ainda estamos no momento de ação, de forma decisiva e inequívoca para acabar com aquele horror. Assim, desde já endereço total e inequívoco apoio a quem lutou e luta contra este incêndio para proteger bens e pessoas naquelas áreas.

Fui Bombeiro Voluntário na corporação de Castanheira de Pera. Conheço bem o espírito abnegado daquela Corporação de que me orgulho muito ter pertencido. Conheço também aqueles terrenos como as palmas das minhas mãos. É importante para todos os bombeiros saber que não estão nem nunca estarão sós.

Quando tudo estiver acabado, então que se apure seriamente o que houver para apurar e que haja a necessária assunção das responsabilidades, políticas, civis e criminais. Todos nós sabemos que nestas alturas surgem imensos “especialistas” que a partir de Lisboa vão comentando os acontecimentos e apontando os dedos aos ministros, aos proprietários e aos eucaliptos. Já todos nós estamos habituados a esses comentadores e damos-lhes a importância que merecem. Mas faz-me muita impressão, ter visto autarcas, em plena comunicação social, a criticar a atuação dos bombeiros, com acusações de abandono. Como é possível um autarca ter este tipo de comportamento? Os autarcas têm um papel importantíssimo na coordenação e logística de apoio no combate a qualquer incêndio, mas por vezes vemos políticos locais que de facto não medem a sua própria incapacidade para tomar as decisões que tomam (ou que não tomam).

Há, de facto, decisões que queimam. Vejamos: Um grande numero de vítimas vinha da Praia das Rocas, empreendimento turístico gerido por uma empresa municipal. Quem conhece, sabe a quantidade de trânsito que a saída das pessoas daquela praia, provoca na EN 236-1 e também sabe que é praticamente a única via que liga Castanheira de Pera ao resto do país. Aquela estrada está em plena mancha florestal, sem qualquer escapatória e não há qualquer outra via de “fuga” a norte da Vila de Castanheira de Pera. Quando há incêndios muito perto, as decisões nos últimos anos, têm sido encerrar a Praia das Rocas e permitir que a generalidade dos turistas se aventure pela EN 236-1, “fugindo” assim aos incêndios. Isso é atirá-los para um perigo desnecessário! Ter construído a Praia das Rocas e ter negligenciado a necessidade de os milhares de viaturas e pessoas que no verão circulariam pela única estrada do concelho sem ter qualquer outra via de acesso, formando um efeito “rotunda”, foi, no mínimo, de uma irresponsabilidade atroz.

Em plena área florestal, construir uma infraestrutura daquelas e não conceber que Castanheira de Pera não podia continuar a ter uma única via de acesso, é tão absurdo que apetece pedir a responsabilidade criminal de quem assim decidiu.

Ninguém queria uma tragédia destas, mas com o passar dos anos e das ocorrências, adivinhava-se algo catastrófico. Num cenário destes, como pode um autarca apontar o dedo aos bombeiros, quando também é da responsabilidade das autarquias coordenar os planos de emergência? Como é que não houve coordenação entre autarquia e GNR para impedir que as pessoas caíssem naquela emboscada fatal?

Enfim. Esperemos que não haja vitimizações ou desculpas e que todos, desde o governo central até ao mais humilde dos autarcas saiba assumir as suas próprias responsabilidades e responda por elas nos lugares próprios. É isso que a função que os cidadãos lhes confiam, exigem!

Por último, expresso os meus mais profundos pêsames aos familiares do Gonçalo Conceição, bombeiro e pessoa muito considerada em Castanheira de Pera, que deu a sua vida por todos! Bem haja.

 

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