Opinião: Jornalismo e publicidade

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Santana-Maia Leonardo

A subserviência e o culto pelos senhores presidentes “do que quer que seja” ainda continua muito encrustada na alma servil do nosso povo, fruto de quatrocentos anos de Inquisição e cinquenta anos de ditadura que a lei da selva da República apenas ajudou a cimentar. E isso reflecte-se de sobremaneira no nosso jornalismo em que a viabilidade económica da esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social local, regional e até nacional dependem praticamente das boas relações com quem detém o poder e das suas liberalidades.
Aliás, chamar jornalismo à maior parte daquilo que se vai lendo, ouvindo e vendo por aí nos nossos jornais, rádios e televisões é uma força de expressão. Para quem não saiba o que é jornalismo, a definição de George Orwell continua cada vez mais actual: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Tudo o resto é publicidade.”
E basta passar os olhos pela maioria dos jornais locais e regionais para se constatar, de imediato, que não estamos perante verdadeiros jornais mas boletins municipais embrulhados em papel de jornal, destinados a publicitar e enaltecer a obra dos senhores presidentes e governantes, sem direito sequer a contraditório. Até porque, na maior dos casos, se houvesse contraditório, acabava-se o jornal. E num país como o nosso em que os senhores presidentes acordam quase sempre com os pés de fora, nunca é bom arriscar ou confiar demasiado na sua generosidade desinteressada mesmo que apregoada.
Como dizia George Orwell, “se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” Mas este conceito de liberdade é demasiado aberto para as nossas estreitas mentes, apenas receptíveis a palmadinhas nas costas.
Mesmo os nossos tribunais, só há bem pouco tempo e fruto das consecutivas e vexatórias sentenças condenatórias do Estado português, no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, por violação do direito à liberdade de expressão, começaram a deixar de dar cobertura às perseguições, por via judicial, que eram movidas contra aqueles que tinham a coragem de criticar e denunciar os abusos dos detentores da chave do palheiro que povoam o território nacional.
“O direito à liberdade de expressão não protege o direito a ter razão mas o direito a não a ter”. Foi desta forma lapidar que um juiz norte-americano, numa sua sentença, definiu o objecto e a latitude deste direito que, em Portugal, toda a gente invoca e pouco gente pratica e respeita.
Em todo o caso, não vale a pena os nossos ditadorzinhos temerem pelos seus lugares porque um povo habituado a viver de cócoras, como o nosso, mesmo na solidão da cabine de voto, é incapaz de votar direito.

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