Opinião: À Mesa com Portugal

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Olga Cavaleiro

Sem sabermos muito bem como, deixamo-nos seduzir pelos produtos tradicionais. É como se eles representassem o mundo que há muito deixámos e incluíssem as memórias que teimamos em manter na nossa identidade. Através deles sentimos a ligação com as nossas origens familiares, com os cheiros e os sabores bons da infância, tenha esta sido idílica ou menos boa.

Até numa côdea de broa acompanhada de sardinha conseguimos sentir o nosso passado de uma forma saudosista e, direi, amorosa. A frugalidade ou a abundância dos sabores que fizeram o quotidiano do nosso passado resultam em recordações boas da nossa vida.

Por isso, hoje, as grandes superfícies sabem a magia que os produtos tradicionais exercem sobre os potenciais clientes e investem nesse sentimento saudosista abundando as designações que nos remetem para o léxico do tradicional usualmente associado ao mundo rural.

Tal, muito profícuo para o consumidor tem a vantagem da maior escolha, se bem que nem sempre bem informada, pois à falta de controlo sobre a utilização das designações constatam-se muitos usos abusivos.

Este apetite crescente pelo tradicional que muito poderá fazer pelo nosso Portugal rural deve ser encarado como um incentivo a um melhor conhecimento da produção nacional, pois ao escolhermos produtos tradicionais estamos a contribuir para o desenvolvimento das regiões produtoras desses mesmos produtos.

Assim, para além dos habituais festivais gastronómicos que enchem a época estival e são tema, sobretudo, para alguns programas de televisão já um pouco estafados em termos de imagem, o que sabemos sobre os nossos produtos tradicionais? Para além de alguns produtos que são cabeça de cartaz nas promoções turísticas e no apelo à vontade de provar o genuíno, que mais conhecemos que possam servir de guia numa descoberta do melhor que se faz em Portugal? Existe estratégia concertada entre municípios e departamentos públicos ligados ao tema?

A melhor estratégia para promovermos a nossa gastronomia e, consequentemente, os produtos tradicionais que esta inclui e que lhe dão conteúdo é, numa primeira fase, a inventariação. Ou seja, é preciso conhecê-los, caracterizá-los e construir todo o contexto cultural e histórico que lhe é subjacente. Ou seja, não interessa apenas saber que eles existem, é preciso saber quais as suas características diferenciadoras, quais os saberes-fazer que lhes dão origem, qual o património imaterial e material que lhes está associado.

Tal pressupõe um investimento por parte dos municípios que, não obstante, poderão fazer tal trabalho em parceria com instituições públicas ou associativas evitando assim custos e envolvendo a comunidade na descoberta do que constitui a sua identidade. Neste âmbito, vale a pena conhecer a plataforma tradicional.pt que inclui uma boa amostra dos nossos produtos tradicionais e qualificados e que resulta de um trabalho desenvolvido pelas confrarias de Portugal e a Direcção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR).

Uma boa maneira de conhecer Portugal à mesa e que é um primeiro passo para sabermos o que caracteriza a nossa produção nacional. Atrás desta estratégia virá o conhecimento, instrumento fundamental na escolha ponderada e determinada do consumidor que, rodeado de informação, toma as decisões de acordo com a sua vontade. Importa por isso, perguntar: Será que a Região de Coimbra já descobriu os seus produtos tradicionais? O muito que poderemos estar a perder deve-nos levar a responder a esta questão.

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