Opinião: O sistema binário de ensino superior e coisas de letra redonda

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Rui Baptista

“Parece muito evidente ser um erro entender a transformação histórica de institutos politécnicos em universidades, como se de uma promoção se tratasse”. Adriano Moreira

Em representação do Instituto Politécnico de Coimbra, tem defendido, à outrance, Rui Antunes, seu actual presidente e ex-professor da Escola Superior de Educação desta mesma cidade, a criação de uma “Universidade Técnica de Coimbra” (Diário de Coimbra, 10/11/2005 ) ou, em alternativa, ainda segundo ele, de uma “Universidade de Ciências Aplicadas” (Diário As Beiras, 05/08/2015 ).

Em antítese com Aristóteles quando este sentencia que “a pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais”, Rui Antunes, em tese própria não hesitou, tempos atrás, em dizer que a universidade e o politécnico fazem o mesmo, como se fazer a mesma coisa fosse, como acontece, a universidade preparar alunos em faculdades diferenciadas para ministrarem as disciplinas de Matemática ou de Ciências da Natureza do 2.º ciclo e o politécnico prepará-los, de uma assentada, para a docência quer de Matemática quer de Ciências da Natureza para esse mesmo ciclo de ensino básico.

Aqui chegado, não pode deixar de me ocorrer a pena mordaz de Eça de Queiroz que, ao escrever sobre o seu velho criado Vitorino, relatava que quando lhe mandavam buscar um livro de versos trazia ele sempre um dicionário ou um tomo das Ordenações, com a desculpa: “Isto ou aquilo tudo são coisas de letra redonda”.

Por estes dias, reforçou Rui Antunes, com renovado élan, esta sua posição, e de outros compagons de route, na cerimónia de atribuição de bolsas de estudo por mérito aos alunos do Instituto Politécnico de Coimbra. Assim, discursando, criticou “um ensino superior a duas velocidades, entre as universidades e os politécnicos” defendendo, simultaneamente, a atribuição de doutoramentos por parte dos politécnicos (Diário As Beiras, 21, 22 /01/2017 ).

Desta feita, com o arrimo de Nuno Mangas, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, quando este, do mesmo lado da barricada, defende que “a designação de ‘universidades politécnicas’ ajudaria a que as pessoas olhassem de forma mais positiva para o sector”, acrescentando que ”o doutoramento terá de ser o passo seguinte para o desenvolvimento dos politécnicos” (“Público”, 06/12/2016 ).

Ou seja, ambos em desacordo com a decisão final do ministro Manuel Heitor – desfavorável à atribuição de doutoramentos por parte dos politécnicos – e com a posição do presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), António Cunha: “Temos sempre defendido o aprofundamento do sistema binário e uma maior diferenciação entre sistemas” (Público, 08/07/2015 ).

Last but not least, não podia deixar de citar este testemunho de António José Saraiva, na opinião de Eduardo Lourenço, “durante meio século uma referência-chave da cultura portuguesa”: “Há meses uma cidade do Norte de Portugal reclamava um instituto ‘universitário’. Por amor da ciência e da instrução? Não, porque já possuía um instituto ‘politécnico’. O que realmente se reclamava era uma mudança de palavra: que o ‘técnico’ passasse a chamar-se ‘universitário’“. (Diário de Notícias, 31/08/1979 ). Como diriam os latinos, nihil novi sub sole!

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