Opinião: José Afonso – trinta anos depois

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Elsa Ligeiro

Há trinta anos, em Fevereiro de 1987, falecia José Afonso após uma dolorosa doença; e as rádios e a televisão recordaram-no com várias canções nesse dia, entre elas a belíssima: “Amigo/ Maior que o pensamento/ Por esta estrada amigo vem/ Não percas tempo que o vento/ É meu amigo também…” que me chegou a Alcains como um convite à mudança. Era partir ou ficar. E eu parti.

José Afonso tinha já marcado a minha adolescência com o hino Grândola que anunciou a todos os portugueses a Revolução de Abril, mas são os versos: “Vejam bem / Que não há / Só gaivotas/ Em terra / Quando um homem / Se põe a pensar…”, que se instalaram para sempre na minha consciência, pelo que considero José Afonso um mestre.

Só mais tarde, em Coimbra, encontro a sua figura mítica de capa negra, e baladas como “Canção de Embalar” que se transformou numa das duas canções que me comovem até às lágrimas sempre que as ouço (a outra é Com que Voz, palavras de Camões cantadas pela Amália).

Há trinta anos, eu era operária e uma sindicalista empenhada em Alcains, e a quem as canções de José Afonso empurraram para a sua vocação de livros e de um exercício de cultura independente.

As dificuldades que sempre encontrei pelo caminho venci-as com o saber apreendido na leitura de livros e jornais (também no teatro e no cinema), e nos encontros fraternos de que deve ser feita toda a grande cultura, e da qual José Afonso é um digno representante.

Trabalhei depois de 1987 no Jornal do Fundão onde António Paulouro, sempre pedagógico, me revelou o exemplo de Antero de Quental e a sua (curta) experiência como tipógrafo; e onde descobri nas páginas do jornal que espantou o país com o seu jornalismo desassombrado e solidário as crónicas de Carlos Drummond de Andrade e José Cardoso Pires; e vi pela primeira vez um homem alto, sisudo, todo vestido de branco, que hoje não me canso de divulgar em bibliotecas escolares e municipais: o poeta Eugénio de Andrade.

Em Coimbra, já em 1991, encontrei na Cooperativa Fora do Texto o advogado Soveral Martins, amigo de José Afonso e que o acompanhava nas visitas ao bairro operário da Relvinha, e onde, entre duas canções, acolhiam as palavras de queixume dos trabalhadores.

Soveral Martins foi quem mais me ensinou a arte solidária nesses anos (já com a revolução em declínio) com estórias empolgantes dos anos 60 e 70; mas também devo algumas das estórias ao socialista António Arnaut e a um homem delicado e culto: Júlio Henriques, um extraordinário tradutor e um anarquista consciente.

Nesses primeiros anos em Coimbra, deslumbrada com o que aprendia diariamente e onde começava de forma tímida a ser editora, bateram-me um dia à porta meia dúzia de estudantes (um deles jogador de futebol na Académia) para os ajudar na edição de um livro sobre o Adriano.

Na altura só conhecia bem a vida do imperador romano que Marguerite Yourcenar tornou verdadeiramente imortal (pelo menos enquanto os livros existirem) ficcionando as suas Memórias, e sem saber muito do Correia de Oliveira ajudei-os com o meu trabalho.

Graficamente o livro é pobre, mas os textos de Manuel Alegre, José Niza, Louzã Henriques e muitos outros dão-lhe o valor que o nosso Adriano merece.

E fiquei admiradora também deste homem que morreu novo e cansado de cantar: “Mesmo na noite mais triste/ em tempo de servidão/ há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não”.

Mas são as palavras e a voz de José Afonso que me acompanham sempre, e que aparecem solidárias e fortes quando necessito de ânimo para continuar o meu trabalho com os livros e os seus autores, e a defender a cultura independente, que, na sua essência, é um encontro fraterno de partilha de ideias, artes e conhecimento.

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