Opinião: Das Novas Crianças aos Novos Adultos

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Pedro Mota Curto

Nos dias 11 e 12 de novembro de 2016, realizaram-se em Seia, as XIX Jornadas Históricas, desta vez subordinadas ao tema: “Homo Ludens Homo Sapiens, os jogos da vida, a vida como um jogo através dos tempos”.

Ao longo de dois dias, inúmeros historiadores assim como especialistas das mais diversas áreas, perspetivaram o jogo e as suas diversas variáveis, desde a antiguidade clássica até aos casinos atuais. O jogo da vida, o jogo de futebol, o jogo de xadrez, o jogo na literatura, no cinema, no teatro, na arte, o jogo patológico, o jogo do corpo, o jogo na filosofia.

Uma das comunicações mais interessantes foi proferida por Carlos Neto, professor catedrático na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa: “O Brincar e as Culturas de Infância: os desafios e os constrangimentos na sociedade atual”.

Na opinião de Carlos Neto que estuda e lida com crianças há mais de 40 anos, o facto de as atuais crianças, sobretudo entre os 5 e os 8 anos de idade, não brincarem o tempo suficiente nem terem tempo para brincar, é motivo de grande preocupação uma vez que estaremos a condicionar de forma irreversível os adultos do futuro. As crianças deveriam ser menos sedentárias, terem mais autonomia nas suas brincadeiras, devendo correr mais riscos e tendo aventuras.

O facto de 70% das crianças brincarem menos de uma hora por dia, significa que, ano após ano, as crianças brincam cada vez menos. As crianças quase não têm momentos de lazer. A atitude de brincarem livremente umas com as outras quase não existe, estando as crianças permanentemente ocupadas a realizar as mais diversas tarefas.

De acordo com este especialista, a grande maioria das crianças já nem sabe brincar. Apesar de verem muita televisão e de serem exímias nos jogos eletrónicos, nem sabem saltar à corda.

Carlos Neto considera que são necessários momentos de grande proximidade mas que também têm de existir momentos de grande autonomia, nos quais as crianças possam interagir livremente umas com as outras. As crianças devem confrontar-se com dificuldades e constrangimentos. Correr, saltar, cair, perseguirem-se umas às outras, esconderem-se, pregarem partidas, puxarem, medirem forças, lutarem, conseguindo superar dificuldades e contrariedades.

Muitos pais pretendem que os seus filhos sejam todos génios (sendo aquilo que os próprios pais não foram), preocupando-se quase exclusivamente com o desenvolvimento cognitivo e menosprezando o desenvolvimento social e emocional. Carlos Neto considera que, inadvertidamente, estes pais correm o risco de estarem a criar “totós imaturos”, futuros adultos com dificuldades de integração social e emocional, com reduzida capacidade de superação de obstáculos.

Hoje em dia menosprezamos o poder do jogo, a herança biológica que transporta, as técnicas de sobrevivência para o futuro, a procura da margem de risco e de identidade cultural. O jogo é um fenómeno integrante da vida. O jogo ajuda a ativar o cérebro e as dinâmicas funcionais, estimulando as relações entre as perceções e as ações motoras.

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