“A política é o reino da opinião e não da verdade”

No sábado estará em Coimbra a apresentar o seu livro “O dom profano – Considerações sobre o carisma”. Fale sobre o livro.
Os livros são para se lerem. Basicamente é uma obra sobre a liderança carismática. É uma reflexão sobre a vida política. Repare: o carisma é uma categoria de legitimidade política e é um conceito central da filosofia política, desenvolvido por autores como Max Weber. No fundo, é exatamente isso: é sobre a liderança carismática, aquela que se baseia muito na emoção, numa certa ideia de transformação, de mudança e de confiança pessoal. Max Weber desconfiava do poder dos aparelhos burocráticos. A atual crise europeia levou-me a regressar a este tema.

Mas diz que o carisma pode ter uma dupla face…
Sim. Tem uma face sombria e outra radiosa. Nas últimas décadas fomos todos marcados pelo carisma autoritário, negro, do uso da força. O fantasma dos totalitarismos carismáticos deixou uma longa herança. O livro diz, basicamente, que há um outro carisma, a favor da democracia. Um carisma a favor dos direitos humanos, da liberdade. Dou-lhe alguns exemplos: Martin Luther King, Mandela e, mais recentemente, Obama. Trata-se de encontrar no carisma uma qualidade que, liberta das características que o ligam às lideranças autoritárias, traz para a política uma dimensão pessoal e emotiva que não é a da racionalidade burocrática e a da intelectualização.

É por isso que critica a deriva tecnocrática do projeto europeu?
A natureza essencial do carisma é a oposição ao poder burocrático e ao poder dos aparelhos técnicos. O que encontramos hoje é um projeto europeu que, longe de estar dependente da vontade dos povos, é detida por um grupo de aparelhos burocráticos que não respondem sobre as suas decisões. Há que recuperar aquilo que é a necessidade de conferir à democracia o que ela tem de melhor. Depende da decisão do povo. Afinal, quem é que deve ser governo? A Europa está, neste momento, a ser governada por um grupo de burocráticos…

Sente-se desiludido com a política?
Por que me sentiria desiludido? Já alguém dizia que a política é um convívio com a deceção. Porque existe sempre uma ambição, um objetivo, uma vontade. É um trabalho que não acaba. Quem não está preparado para se dececionar é melhor não ter essa ambição. A política é o reino da opinião e não da verdade.

 

Entrevista completa na edição em papel do dia 02 de fevereiro de 2017

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