Opinião: 31 de janeiro e outras memórias…

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Gil Patrão

Em 31 de janeiro de 1891 eclodiu no Porto a primeira das três revoltas que conduziram à implantação do regime republicano. Portugal, que sempre se vê grande, tinha expandido em 1890 o império do Atlântico ao Pacífico (Mapa cor-de-rosa), o que motivou o ultimato inglês; a tibieza da corte fez capitular o reino, e o vexame sentido pela nação precipitou o que se passou depois. A revolta falhou, mas à terceira foi de vez, datando de 1910 a nossa primeira República.

Com o decurso do tempo mudam-se pontos de vista e critérios de análise política, mas há coisas que nunca se esquecem, enquanto outras logo se varrem da memória. Alguns ainda se lembrarão de um ministro do ambiente de um dos governos cavaquistas ter relacionado, de forma infeliz, o excesso de alumínio em águas eborenses com a hemodiálise, acabando demitido pela fortíssima divulgação dada pela comunicação social a manifesta falta de postura ministerial. Mas o ministro era pessoa de bem e do mais fino trato, e devoto convicto das leis de Cristo! Só que não mediu as consequências duma piada com que não pretendeu ofender a memória de ninguém nem chocar o povo, mas a ética – dele e do chefe do governo – logo ditaram as suas duras regras.

Outros recordarão a forma algo acintosa como era noticiada a presença do “Paulinho das Feiras” nos mais diversos mercados, mas deste nunca se ouviram comentários jocosos sobre um costume popular em que captava alguns votos e muitas simpatias.

Certos adversários políticos desdenhavam a sua manifesta capacidade de entrosamento com o povo, mas mal se acercam eleições não há político que se preze que não se apresente, de forma ciente e bem planeada, nas muitas feiras ao longo do país, apertando mãos, beijando faces, bajulando quem lhe poderá dar os votos de que careça para ser eleito. Daí não vem mal ao mundo, pelo que as críticas a quem o fazia com maestria, adviriam de o “Paulinho” não ser de esquerda, como quem então o criticava.

Mas ainda alguém recordará um ministro ter dito, no final do ano passado, a um seu par, que a reunião que este tinha acabado de fazer com os parceiros sociais “lembrava uma feira de gado”? Gerou mal-estar o dito e o tom em que foi dito, fruindo com um acordo sobre o salário mínimo, algo que devia ser tratado com compostura e seriedade, até porque esse ministro ocupa pasta deveras importante! Mas a polémica passou com um mero pedido de desculpa, pois quem não perdoa um dito infeliz de um ministro de negócios estrangeiros, sobre assunto que é do interesse do povo? Grave seria tal afronta, mas só se fosse dita…, por um ministro dos negócios internos!

E já é assunto esquecido os três secretários de estado que foram “ver a bola” a França às custas de uma empresa privada, mesmo que um ainda tutele a área dos assuntos fiscais, com quem tais interesses privados tinham, e têm, disputa legal! Questão menor, resolvida com o pagamento de despesas à petrolífera, mas só depois da falta de ética ter sido descoberta. E quem recorda os assessores e chefes de gabinetes de membros do governo atual, que meteram os pés pelas mãos com licenciaturas falsas, e mesmo com a emenda de graus académicos entre cargos ocupados sucessivamente, até que se demitiram? Mas, para o primeiro-ministro, foram tudo “fait-divers”!

Continuando o país a ser tão pobre, não admira o voto à esquerda, mas a Revolução dos Cravos já tem 42 anos e as mais gritantes desigualdades ainda imperam! Apesar da demagogia e faltas de ética, há enorme complacência com políticos que menosprezam o risco de nova bancarrota, embora a elevada dívida pública, e os altos juros pagos, evidenciem esse perigo. Nas repúblicas democráticas cabe ao povo eleger todos os governantes, mas governos que implementam políticas irrealistas fazem lembrar tempos em que a monarquia não defendeu o interesse do país. Ainda recorda o que motivou os três resgastes havidos após o 25 de Abril, e quem os implorou?

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