“A minha geração traiu tudo aquilo em que acreditou”

FOTO DB/LUÍS CARREGÃ

No seu livro “Por uma sociedade mais decente”, mostra-se desiludido com o rumo de Portugal e da Europa?

Sim. Há, de facto, alguma desilusão no meu livro. Se quiser, uma desilusão geracional, de alguém que acreditou, especialmente por causa do 25 de Abril, na possibilidade de criar uma sociedade mais igual, mais justa e mais moderna. O que não quer dizer a minha visão seja totalmente negativa. Muito longe disto. O Portugal que conheci antes do 25 de Abril era muito pior, não só pela ausência de liberdades, como pela situação de miséria que vivam vastíssimas camadas (muito pior do que hoje) porque não havia SNS, não havia escola pública. Apesar de tudo, são valores de que temos todas as razões para sentir orgulho. O problema, no entanto, não é basicamente português.

Então?

É um problema de modelo de sociedade a nível europeu e mundial, com as várias particularidades que se podem encontrar. E resulta sobretudo de termos abandonado aquilo que eu refiro como o “espírito de 45”, ou seja aquela ideia fundadora do estado social, a ideia que as sociedades devem ter uma teia de proteção que defenda uns e outros, mas que esteja particularmente atento aos mais desprotegidos para que possam sobreviver em coesão social, harmonia e desenvolvimento. Isto está em profunda crise. Vive-se numa sociedade individualista.

O mundo está a mudar. A eleição de Trump, o Brexit… Como explica isto?

É uma boa questão e da qual creio que não possamos eximir-nos totalmente de culpas. Podemos dizer que os EUA escolheram a pessoa menos adequada ao exercício da Presidência da República e que revelaram uma posição que nos desagrada. Mas, se formos pensar nisto, temos que perceber que, de alguma forma, o modo como tem sido exercido o poder político nos vários estados, e como foi com os próprios EUA com o partido democrata – com o isolamento da elite política das preocupações reais da população e com a subordinação aos meios financeiros, num certo sentido Trump foi qualquer coisa que mereceram. Aliás, a candidata do partido democrático era uma candidata muito má, tinha atrás dela um passado de ligação a este tipo de meios. Portanto, essa subordinação aos interesses financeiros foi fatal. O discurso que estou a fazer poderia ser aplicado ao Brexit, aí com a agravante daquele longínquo poder de Bruxelas ser sentido como profundamente ilegítimo pelos ingleses e com o facto de muitas das instâncias comunitárias serem de legitimidade democrática duvidosa.

O seu novo livro intitula-se “União Europeia – reforma ou declínio?”. O que defende?
Depois de um período em que a UE avançou sempre – aumentaram os membros e os pedidos de adesão – o Brexit fica, de alguma forma, a marcar o “turning point” em que o Reino Unido decide sair e em que outros países começam a acenar com a possibilidade de sair ou a querer renegociar cláusulas específicas. O que me preocupa é que, se olharmos para a Europa, já há muito tempo que não nos acontece nada de bom…

E em relação a Portugal?
Portugal tem uma posição muito difícil. Por uma razão: no atual contexto da UE é uma média nação com muito pouco poder. Depois, a situação financeira em que nos encontramos deixa-nos numa situação de grande dificuldade. Quando este governo pretende seguir, e muito bem, uma linha diferente daquela que é a linha oficial de Bruxelas, isto cria anticorpos complicados e vimos o que foi a sequência de ameaças, de sanções, de chumbos do orçamento, etc. O governo conseguiu, notavelmente, fazer passar sem grande desgaste os orçamentos, enfim, a generalidade da manobra financeira que pretendeu. Mas essa manobra financeira é feita em valores muito restritos. Ainda bem que conseguimos cumprir as metas, porque era a única coisa que havia a fazer nesta altura, mas isso foi conseguido através da compressão brutal do investimento público, que é uma coisa que se paga caro e de um crescimento económico anémico. Dentro destes valores não é possível crescer mais. Portugal tem que descobrir a forma de conseguir as alianças externas para forçarem uma alteração no pensamento da UE. Mas essa aliança é cada vez mais difícil porque aquilo que eram os partidos social-democratas, encostaram de tal forma à direita, reconverteram-se de tal forma à austeridade, que já não são parceiros credíveis para isto.

Defende que Portugal se junte a uma aliança contra a austeridade?
Exatamente. E que Portugal tome uma posição mais proativa do que a que teve até agora. Percebo que o Dr. António Costa tenha querido tornar-se credível, mostrar que não ia seguir um caminho à grega e isto está feito apesar de, à mínima coisa, haver possibilidade de se desfazer essa confiança. A seguir, o governo português tem que ter coragem para levantar questões como a da reestruturação da dívida. Porque enquanto tivermos este peso de dívida pública, é escusado pensar. Em Portugal pagamos dívida pública. Claro que se pode dizer: “endividámos-mos, gastámos demais”. Mas este endividamento foi, em larga medida, resultado de uma crise económica que não tem origem nas finanças públicas. Tem, pelo contrário, origem no sistema financeiro privado que teve a habilidade de conseguir transformar isto numa crise da dívida soberana. E as taxas de juro que Portugal está a pagar são taxas elevadíssimas, mesmo comparativamente a outros países, e taxas de juro que não se justificam, dada a ausência de um risco real. Por isso, Portugal tem que tentar acionar mecanismos de restruturação da dívida.

Em miúdo, era da Académica…
Absolutamente. Era um fanático. Sempre pensei que vinha estudar para Coimbra. Os meus pais formaram-se em Coimbra, as minhas irmãs, toda a gente viveu sempre em Coimbra, e naquela altura, a Académica tinha uma legião de adeptos que eram os antigos estudantes de Coimbra. Normalmente havia as equipas locais que eram filiadas, sócias na Académica – no meu caso era a União Micaelense. Eu era ferozmente adepto do Micaelense, joguei nos infantis e juvenis, já tinha um peso considerável, e a Académica tinha um jogador com 120 quilos – o Mário Wilson. Todos diziam que eu era o novo Mário Wilson. Era a minha esperança.

Engraçada essa paixão pela académica vinda de uma pessoa que não estudou em Coimbra…
É como se tivesse estudado. Quando comecei a vir para Coimbra para fazer parte de júris de provas académicas, ficava sempre a falar do meu amor por Coimbra. Tenho a sensação que os meus colegas pensavam, “mas o que é que este quer?”. Mas corresponde ao que eu sinto. Embora vivesse nos Açores, vínhamos cá no verão e tudo o que era a baixa, os velhos cafés de Coimbra, era para mim algo de absolutamente fascinante. Os meus pais morreram bastante cedo e ainda me comove muito ir a Coimbra e pensar que foi o sítio onde eles se conheceram. Sinto-me uma espécie de traidor por não ter ficado em Coimbra.

Diz que a sua geração traiu todos os valores por que se bateu…
É uma ideia que me marca muito. A minha geração traiu tudo aquilo em que acreditou. Quando chegou o 25 de Abril, eu era estudante. O meu posicionamento foi sempre na área da social-democracia. Fomos sempre reformistas, mas acreditávamos profundamente na tal transformação da sociedade. E a certa altura sinto que muitos se acomodaram à ideia de sucesso. Ou à salvação individual. Os valores coletivos deixaram de lhes interessar. Sabe: gosto muito de cinema e vou muito à cinemateca. Durante muitos anos encontrei gente da minha geração e, aos poucos, deixei de os encontrar. E aquilo correspondia um pouco a uma tradução física da traição aos valores por que lutávamos, à acomodação de ver filmes em casa em vez de ir à cinemateca. Agora que estou mais velho, dou comigo a ir menos vezes à cinemateca. Pode dizer-se que a cinemateca não é um valor social, nem sequer cultural, essencial. Mas é um estado de espírito. Faz-me muita impressão a forma como as pessoas prescindiram de qualquer valor, mas prescindiram também deste tipo de vida coletiva. E é isso que faz as sociedades.

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