Opinião: A arte e ignomínia dos que, acima da lei, esmagam a mesma

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Joaquim Amândio Santos

Mais um dos sempre atentos e atilados escritos na rede do meu particular amigo, conterrâneo e douto professor Alfredo Sousa, chamou-me a atenção para uma notícia do DN, saída a 13 deste mês natalício e que regista a extinção da derradeira medida de coação que pesava sobre Ricardo Espírito Santo, que agora é livre de estar, ser, viajar e usufruir de tudo quanto, atempada e maquiavelicamente, colocou de lado, para que nada falte ao seu mais do que espectável faustoso modo de vida.

Dele e de toda a corte familiar e dos inúmeros serviçais especializados nas mais diversas áreas jurídicas, económicas, sociais, políticas e comunicacionais, pagos a peso de ouro, que gravitam à sua volta.

Acusado de seis crimes hediondos (só seis?!…) que levaram ao descalabro não apenas de um dos mais importantes e fortes grupos económicos mas que, ainda mais grave, praticamente faliu a PT e lesou milhares de pequenos aforradores que confiaram as poupanças de uma vida ao banqueiro e ao banco que eram teoricamente (quase) donos disto tudo!

E nem sei o que será mais chocante, mais grave, mais inaceitável:

Se a celeridade de lesma que a nossa justiça apresenta, principalmente quando o seu manto contundente deva cair sobre os poderosos, tornando-a metaforicamente maniqueísta pois boa no seu espírito de julgar o mal, mas muito má no castigo desse mesmo mal quando exercido pelos mais fortes,

Se a incapacidade (suspeita-se que cinicamente voluntária…) do Estado e dos políticos que, governo após governo, desde que o caso despoletou, se revelam muito tímidos na busca dos bens ainda existentes e no confisco dos mesmos, para tentar ressarcir o bem público do dinheiro que já injetou para atenuar os efeitos da implosão do grupo Espírito Santo,

Se de uma parte significativa da comunicação social que, manietada pelos interesses económicos que pagam muitos dos salários dos projetos desta área, ignoram olimpicamente o assunto ou o tratam de uma forma tão angelical que mais parece obra de ficção de cordel,

Se a desmesurada arrogância e desfaçatez da lista cada vez mais gorda de personalidades importantes da política, da banca e dos negócios que transformaram estes 42 anos de dita democracia num corrupio de corrupção e de aproveitamento do bem público, residindo aqui a verdadeira génese, essência e modus haciendi da bancarrota cada vez menos encapotada em que esta triste república vive mergulhada.

Somos um país adiado, quando consideramos aquilo que deveria ser o principal objetivo de uma democracia: progresso social, justiça social, valorização da educação, culto da ética pública, liberdade consciente e respeitadora do indivíduo, enquanto parte integrante de um coletivo e igualdade nas oportunidades sociais e económicas.

Há quem chame a isto quimera. Eu chamo-lhe decência de vontade.

Mas esta partiu há muito tempo para outras paragens e nenhuma dessas será um dos locais idílicos onde os Espírito Santo erguerão taças de cristal com o melhor champanhe num hilariante brinde à covarde subserviência de quem manda neste país.

Não sei como ainda tenho coragem e força para este momento sentido mas lá vai: a todos um Bom Natal.

16 Comments

  1. Sérgio Dias says:

    a mim só me ocorre…e "biba portugale"! Porque quando alguém disse ; Portugal é lixo ,e ficamos todos sentidos como virgem ofendidas, eles não se referiam ao belo País, bela comida, beleza natural a rodo, nossa história, etc…forte abraço e saudações Penafidelenses

    • Zé da Gândara says:

      Realmente temos uma história de que nos podemos orgulhar deveras… Povo de negreiros, de esclavagistas e de dizimadores de culturas e de raças tidas como inferiores (os Índios do Brasil que restam sabem-no melhor do que ninguém), bem como de traficantes de carne humana à escala intercontinental… Em todo o lado onde estivemos, acabámos por ser corridos à castanhada… Foi no Brasil… Foi na Índia (de que ninguém ousa falar)… E por fim, foi de África… Vá-se lá saber porquê, não é? De certeza que não foi por rezarmos muitos Pais Nossos e muitas Avé-Marias! Eu até diria mesmo que foi por não passarmos de um povo composto por chulos e parasitas e cujo legado em todos os sítios onde estivemos presentes é ainda hoje bem pesado e que é atestado pelo subdesenvolvimento dessas mesmas regiões geográficas… Corrupção… É quase sinónimo de Lusofonia… E cá no puto (ex-metrópole) a coisa não é melhor… A diferença é que no caso da América Latina a corrupção afirma-se como modo de vida e é praticada à vista de todos sem o menor prurido enquanto que cá no puto é uma corrupção amaricada que não saiu do armário, isto porque qualquer corrupto que se preze tece uma auréola angelical em torno de si próprio ao ponto de corar de vergonha como uma virgem ofendida quando é confrontado com as suas vigarices e actos de corrupção… Enfim, fazer vista grossa a isto e cantar odes à dita "Portugalidade" é que é um verdadeiro exercício de masoquismo de carácter psiquiátrico e psicótico…

      • Margarida Rocha says:

        Prezado Zé da Gândara, felicito-o pelo seu incisivo comentário, que muito honrou o meu texto.
        Por mais que nos doa, a realidade é mesmo essa. Forte abraço!

    • J. Amândio Santos says:

      caro Sergio são os tempos assustadores que nos assolam!

  2. Arlindo Pinto says:

    Joaquim Amândio Santos Parabéns pela crónica , pode não agradar a alguns , mas é a mais pura das verdades.

    • J. Amândio Santos says:

      Prezado Arlindo, quero querer que não agradará a muitos. Mas em nada me tolhe nem me assusta que assim seja. Os factos falam por si. Forte abraço!

  3. Carla Cristina Rocha says:

    Como sempre, amei!!! Ainda ontem falava com uma colega para (ao ler a noticia do estado de Mário Soares), espanto de uns e rosto ofendido de outros, dos mais devotos soaristas… quando eu dizia… que ele era apenas mais um ladrão, corrupto e enaltecido ser do nosso país!
    País que é uma casinha que sofre constantemente de violência doméstica e que seja por medo ou amor doentio… a vítima acabava morta ou a perdoar o adomestador, castrador mesmo! Uma vez mais… Parabéns pela excelente crónica, beijinhos

  4. Alfredo Sousa says:

    Prezado Amigo, grato pela referência, mas sobretudo pela comunhão de princípios que ambos manifestamos e que só peço não nos doam os dedos (o intelecto) para os denunciar. Grande abraço e… vamos continuar.

  5. Muito bem! Parabéns!!!

  6. Ho Chi Minh says:

    Gostaria de um dia poder tomar um café consigo e mostrar-lhe alguma documentacao da fidelidade e relacionada com ela, abraço

  7. Margarida Rocha says:

    Gostei muito. Ótimo escrito, como de resto já nos habituou.
    Bom Natal

    • J. Amândio Santos says:

      Esforço-me para adicionar à ética a qualidade e fico muito feliz quando o vosso "feedback" é positivo. Saudações!

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