Opinião – Os sentidos também se educam

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Manuel Rocha

Manuel Rocha

 

Os sentidos também se educam. Bem ou mal, tão recetivos somos ao que nos é dado desde os primeiros dias de mundo. Vemos feio, aprendemos feio; provamos mau e mau aprendemos (e o que serve para estes dois sentidos, para os três restantes há de servir). Educar os sentidos é também Educação, o lugar onde nos ocupamos dos vindouros, que hão de ser (também) aquilo que de nós receberem. Por isso é que na Assembleia Municipal da passada quarta-feira, o eleito Paulo Coelho, da CDU, levou à tribuna o prato das crianças das nossas escolas. Falou das coisas graves: feijões estragados, bolor no queijo e respetivos malefícios. A resposta viria logo a seguir, na voz de um eleito empenhado nas justificações camarárias: a bactéria foi obra do diabo, tal a lista de medidas de proteção, laboratórios credenciados, coimas e verificações, vistorias e demais peneiras a que contudo, matreiro, o tal feijão logrou escapar.
No dia seguinte, neste mesmo Diário As Beiras em que vamos sabendo uns dos outros, dava-se conta de que na Escola de Ribeira de Frades “o arroz de feijão com couve e carne vinha queimado, tal era o sabor e o odor que emanava das marmitas”. Desta vez o culpado não pertencerá ao catálogo da microbiologia, pelo que os laboratórios independentes e credenciados não o terá apanhado antes de chegar ao prato. É que o esturro ataca sobretudo os sentidos, mais o olfato e o paladar do que qualquer dos outros três, pelo que não há crime alimentar de maior limpeza do que o de fundo do tacho. Ilibe-se pois o laboratório, que o esturricado, por si só, não atrai bactérias más; absolva-se a vistoria, já que o competente fiscal poderá padecer de sinusite. O esturricado cumpre todas as normas de qualidade do governo luso e do mais potente de Bruxelas, pelo que não havendo assunto está o assunto resolvido. Não gostam, não comam.
Mas não é no plano culinário, nem no técnico, que se deve discutir a questão das refeições escolares. A questão é política e é nesse lugar que deverá ser tratada.
Trabalho num território escolar em que os jovens beneficiam de uma quase heroica teimosia. A Escola Básica e Secundária da Quinta das Flores recusou a “externalização” da cantina e serve, todos os dias, 500 a 700 almoços de comida que é boa e sabe bem. E o trabalho que dá? E o brio que não é preciso para que o pessoal de cozinha tenha escolhido resistir à desvalorização profissional e à extinção de carreiras diferenciadas, cozinhadas pelo “centrão” desde Sócrates a Coelho? E as dores de cabeça que não dá aos órgãos de gestão e administração da Escola organizar concursos, escolher alimentos, procurar sempre as melhores soluções para uma alimentação equilibrada? E a pachorra que não é precisa para aturar as queixas anónimas de falsa insalubridade que motivam a (natural) intervenção das autoridades sanitárias? E a competência que não é precisa para tratar das restrições alimentares, fazendo da alimentação um fator mais de inclusão? E a responsabilidade cidadã que não é precisa para, sendo-se Escola, ser-se Estado onde o Estado abdica da educação (do conforto) alimentar dos seus mais jovens?

A lição é velha: no ambiente político em que a ganhuça se sobreponha ao bem-estar dos comuns, as decisões “empresarializadoras” – na educação, na saúde, na segurança, nos transportes – ou fazem mal ou cheiram a esturro. Revertamos então as malfeitorias! Sobretudo quando as conveniências do “mercado” se instalam no prato (na vida) das nossas crianças.

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