Opinião – Licenciaturas há muitas…

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Hélder Bruno Martins

Hélder Bruno Martins

Numa sociedade sedenta de sucesso, êxito e fama, espíritos mais carentes tendem a promover-se através de atributos extrínsecos à sua própria condição humana individual: formação, cargos e funções profissionais, entre outros atributos mais materiais. Vem isto a propósito das falsas licenciaturas a que infelizmente já nos acostumamos… Já nem sequer é necessário ter concluído a licenciatura. Basta que nos perfis das redes sociais surja “estudou na Faculdade…” e isso já serve de vinculação social a um estatuto de perfil minimamente exigido.
É verdade que a pressão social é por vezes agressiva. Os que ocupam funções ou cargos políticos sentem-se, talvez, pressionados a justificar as suas funções ou os seus cargos através da detenção de uma licenciatura (no mínimo). Mesmo que seja uma redonda mentira… Tudo isto é ridículo e simultaneamente sério, patológico, revelador dos valores que toldam este nosso tempo. E não é só em Portugal! Noutros países e em várias instituições (basta fazer uma pesquisa na internet) têm surgido casos idênticos aos do nosso país.
Já aqui escrevi anteriormente que através da democratização da informação e do conhecimento existem hoje tarefas, funções e cargos que podem ser desempenhados por cidadãos sem qualquer formação, específica ou superior, para o efeito. E isso é mais ou menos transversal às várias áreas de atividade, com mais ou menos estudo e esforço, mas passíveis de serem desempenhadas por cidadãos que reúnam características intelectuais, culturais e humanas para tal. São as qualidades intrínsecas à condição humana individual que determinam a competência e o perfil do cidadão para qualquer tarefa, função ou cargo.
Na política, mais do que técnicos especialistas, são necessários seres humanos: cidadãos de corpo e alma, que riam, que chorem, que se emocionem, que sintam, independentemente da sua cosmovisão (ou das suas ideologias). Evidentemente, seria conveniente que todos os cidadãos pudessem concluir estudos superiores. Contudo, com qualidade e exigência – durante a formação e, depois, na vida ativa. É que, visto de uma perspetiva meramente prática, de uma «mentirosa licenciatura» a uma «licenciatura mentirosa», não sei qual se deverá preferir…
Hoje assino como “músico, compositor, pianista”, precisamente porque um musicólogo ou um etnomusicólogo não é (ou poderá não ser) músico; porque um músico emerge para lá da formação teórica, académica e científica; porque nem todos os músicos são licenciados e nem todos os licenciados em música são músicos. E há tantos universos estéticos… Somos músicos porque o público nos reconhece enquanto tal.

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