Opinião – Um ministro de pernas para o ar*

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Bruno Paixão

Bruno Paixão

Meu-querido-colega-investigador-que-agora-és-ministro. Disseram-me que o mundo estava de pernas para o ar e eu fui ver se era mesmo assim.

Deitei-me de cabeça para baixo e, imagina, constatei que era de facto verdade: tudo estava de pernas para o ar. Muita coisa está mesmo a mudar, o mundo pula e avança: sacudimos a austeridade para debaixo do tapete, a manifestação do 1º de Maio passou a ter mais políticos e dirigentes sindicais que trabalhadores, qualquer dia havemos de entregar o cartão de cidadão em substituição da nova cartolina cidadona.

Não faltará muito para que sejam abolidas as casas de banho diferenciadas quando descobrirem que estas são fruto de uma visão preconceituosa, sexista e medieval (por cá, tudo o que não presta é apelidado de medieval).

De pernas para o ar, tudo me pareceu ao contrário. Exceto tu, que encontrei justamente na mesma posição que eu. Lá estavas, de gravata caída a ajeitar-te o pescoço, barba meticulosamente descontraída e de fato novo ainda mal-amanhado ao corpo. Ficámos com ar sorumbático e soturna pose de Estado, mesmo de cabeça para baixo.

Começámos a falar sobre o que daquela posição nos parecia certo. Falámos do teu ministério e do que queres para o ensino. Tu só queres que os tipos do sindicato parem de te chatear e te deixem trabalhar. Por ti, decretavas limitação de mandatos sindicais e eles teriam de deixar o lugar que ocupam há décadas…

Tu, caro Tiago, que andaste cá por Coimbra e depois emigraste para Dallas e Cambridge, acabaste por aceitar o bilhete de regresso à nossa portugalidade. Terá sido pela gastronomia, pelo sol, pelas gentes? Não… Foi pela Educação. Foi “para mudar tudo na Educação!”

Ah, claro, como somos ingénuos… Há que mudar tudo, muitas vezes, pois é para isso que serve a alternância… Quis saber por onde ias começar. “Por tirar da gaveta a esquerda adormecida! Vamos entorpecer as escolas privadas e viva o que é público”, disseste. Eu não gritei “viva”. Ficaste embaraçado…

Quis dizer-te que o pai Soares tem um colégio privado e que o seu programa não se confina a uma freguesia… Como podes tu admitir que as escolas sejam comparticipadas apenas para os alunos que pertençam a essa freguesia? Ignoras que vivemos no seio da globalização? Desconheces que a mobilidade das pessoas, mesmo na nossa medieval portugalidade, há muito derrubou as barreiras da distância? Tu próprio és um cidadão do mundo…

Estranhas que possamos escolher a unidade de saúde onde queremos ser assistidos independentemente da rua ou da praceta onde residimos? Que mal há na escolha dos pais quanto ao melhor percurso educativo para os seus filhos? Por isso exclamei “Viva a liberdade”. Tu não gritaste “viva”.

Desafiei-te para um exame. Aceitaste com relutância. Perguntei: se uma escola privada com contrato de associação ficar ao Estado mais barata que uma pública, qual fecharias? “A privada… claro”.

Voltei a perguntar: e se os alunos e os pais quiserem optar pelo ensino da escola privada? “É para isso que servem os decretos”, balbuciaste. E se a escola pública não garantir qualidade, confiança, resultados, apoio, estabilidade, ou identificação com um projeto educativo de excelência?

“Como assim?” – questionaste, coçando as sobrancelhas em movimentos ambulantes. Eu queria saber como procederias se te deparasses com uma duplicação desnecessária da oferta, se fecharias a que responde pior às necessidades da comunidade e às contas do Estado, mesmo que esta seja estatal e se assim manterias a privada com contrato de associação. Retorquiste: “Como pode um esquerdista como tu apoiar a liberdade do ensino?”

Romper com os contratos de associação assinados, que vigoram por três anos, e deturpar a palavra dada é, convenhamos, um peculiar exemplo vindo deste Estado, sempre tão complacente e exigente com todos. Para além de ser uma forma de liberdade que priva os jovens de frequentarem escolas bem preparadas para responder às suas necessidades e de desrespeitar milhares de professores que prestam serviço público nos colégios.

Disse-te que era altura de sairmos da posição de pernas para o ar. Ainda não é demasiado tarde. Não dependes da política, estás descomprometido, és inteligente. Vai para o teu gabinete pensar nisso. A conversa ficará apenas entre nós…

* Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

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