Opinião – O despudor desmedido ou a vã glória da incontinência moral

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Joaquim Amândio Santos

Joaquim Amândio Santos

Num dos raros momentos de descanso, num dia felizmente preenchido em azáfama sem fim, passei ontem os olhos pelas redes sociais e eis que me deparo com esta “pérola” de notícia, transcrita pelo meu bom amigo Miguel Gonçalves no seu mural:

O Banco de Portugal (BdP) afirmou hoje que a redução da desigualdade na distribuição do rendimento em Portugal poderá contribuir para diminuir a poupança, uma vez que as famílias que mais recebem são as que mais poupam.

Quero dizer-vos que o meu enorme apreço pessoal pelo excelso trabalho que o Miguel assina, semana após semana, na RTP, na divulgação científica do Cosmos, me fez querer acreditar que tal dislate era um laivo de humor sob a forma de eclipse momentâneo do decoro e da arte de bem servir os cidadãos.

Esperança oca e sem fim feliz. É mesmo verdade.

Os senhores que comandam o sistema financeiro português, especialmente o sistema bancário, bradam aflitos aos céus perante a possibilidade de acontecer uma redistribuição mais justa, que torne os ricos ligeiramente menos ricos e os pobres um pouco mais remediados.

Segundo o supervisor dos bancos, estaremos pior, se uma nota a mais nos bolsos dos que contam tostão a tostão, fazendo ginásticas verdadeiramente olímpicas para pagarem todas as contas do mês, significasse uma menor possibilidade dos abastados poderem ter mais dinheiro à disposição para fazer sempre crescer o seu pecúlio!

Não consigo vislumbrar adjetivação suficientemente contundente para descrever a arrogância latente numa tomada de posição pública que nada tem de inocente.

Revela total sentimento de impunidade perante a possibilidade de um escrutínio público poder resultar em consequências punitivas para os responsáveis de tão inaceitável posição do Banco de Portugal.

Revela ainda que já nem sentem a necessidade de mascarar a sua única preocupação: proteger os bancos e os banqueiros, quaisquer que sejam os atos danosos de gestão, os crimes cometidos, tudo em nome da “estabilidade do sistema”, essa “bíblia sagrada” que já nos custou o equivalente a metade do último resgate das finanças públicas.

E nem esconde que o empobrecimento da maioria é desiderato que não os aflige, pois passa muito bem despercebido nas suas belas folhas de Excel, onde se divertem a fazer “contabilidade criativa”!

E isto deixa-me indeciso sobre o que fazer.

Possivelmente, o que espera esta “casta” imoral que manda nisto tudo, é que, perante esta sapiente análise, eu e todos os cidadãos remediados peçamos publicamente desculpa pela ousadia de querermos viver um pouco melhor, retirando o sagrado direito dos poderosos a saborearem sem restrições um “lifestyle” imaculado na sua farta plenitude!

Como nunca nada tive de subserviente, levarão de mim um imaginário gesto igual ao que Rafael Bordalo Pinheiro imortalizou, sob a forma de reforço das minhas poupanças, nem que seja através de um simples euro.

Não sei se tal gesto fará de mim um perigoso esquerdista revolucionário, mas só a ideia de ter ainda mais um tostão europeu num banco, cria-me o terror de não saber se o próximo a ser assaltado por dentro, não será aquele onde depositei ufano a minha moeda arduamente poupada!

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