Opinião – Fact Chec

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Bruno Paixão

Bruno Paixão

Há uma máxima anglo-saxónica que diz que “as opiniões são livres, mas os factos são sagrados”.

Nestes tempos em que vivemos, pautados pela pressa da notícia, pela vertigem do imediato, pela rapidez do instantâneo e pela prontidão da superficialidade, tendemos a deixar de pensar mais profundamente nas coisas e a aceitar sem contraditório ético toda a profusão que é dita.

Fiquei a pensar nas eleições do PS. Nunca tanta tinta correu nos jornais como agora a propósito deste processo eleitoral.

Primeiro, o caso das fichas ameaçou ser o maior escândalo mundial – só equiparável ao Watergate americano!!! – mas, afinal, a suspensão de algumas pessoas, justa ou injustamente, parece ter-se desvanecido com a espuma dos dias.

E com o rigor da aplicação do direito… Foi dado palco aos que muito gritaram, aos que se aproveitaram do incidente para atingir os seus fins. Quase tudo chegou ao fim. Para os aproveitadores, foi um triste fim…

Depois, a estrutura nacional do PS veio impor novos cadernos eleitorais, novas datas, ditou regras, divulgou-as e, a pedido do próprio presidente da Federação, Pedro Coimbra (já aqui lhe gabei a imensa coragem democrática), abriu o ato eleitoral a mais candidatos, quando os prazos já tinham terminado. Apareceu quem quis.

António Manuel Arnaut anunciou a sua candidatura. Apreciei o gesto. Sabiamente sobreviveu ao nome grande do seu pai e estabeleceu a sua singularidade. Merece reconhecimento e respeito, a sua decisão. Julgo que lhe terão sido dadas expetativas elevadas quanto a um resultado eleitoral.

Com o tempo, inteligente e astuto como é, decerto terá percebido que o seu adversário, Pedro Coimbra, é respeitadíssimo na região e fora dela, tem uma ímpar capacidade de trabalho, é conhecedor e atento aos problemas de cada concelho, de cada freguesia, das suas instituições, obteve a mais apreciada vitória autárquica no distrito, teve um papel ativo e decisivo na escolha do Presidente da Associação Nacional de Municípios, liderou em Coimbra um resultado acima da média nacional em eleições europeias e legislativas, é leal, solidário e muito sério.

Conhece os militantes do Partido e os atores políticos pelo nome, privilegia as relações fraternas e é um amigo como poucos. Conheço-o há muitos anos para poder afirmar com toda a clareza que a sua força de caráter é igual na vida privada e na vida pública.

Aquando da desistência recente de António Manuel Arnaut, mascarada de suspensão, a sua candidatura aludiu à “falta de condições de legalidade e transparência”. Faltou explicar especificamente o que queria com isso dizer. Não percebi do que se queixavam.

Seria pela utilização do espaço da sede da Federação? Não, pois esse foi dado de igual forma a ambas as candidaturas.

Razão teria Pedro Coimbra se quisesse queixar-se, pois em eleições anteriores foi-lhe vedado o espaço da sede da Federação e teve de montar arraiais numa casa cedida pela família de Fausto Correia. Seria pela listagem dos cadernos eleitorais? Mas esta foi elaborada em Lisboa, como sempre, e é porventura a mais escrutinada e vigiada de sempre nestes mais de 40 anos de vida do PS.

Segundo dirigentes nacionais do Partido, próximos de António Costa, foi “tudo passado a pente fino”. Seria então pela composição da Comissão Organizadora do Congresso, como anunciaram os jornais?

Mas, vejamos, foram acolhidos neste órgão os nomes indicados por Arnaut. E esta Comissão Organizadora é presidida por Luís Marinho, cuja honorabilidade está acima de qualquer suspeita. E não vislumbro em que medida uma comissão organizadora de um congresso pode influenciar o voto democrático e livre de largos milhares de pessoas.

Claro que não pode!

Digo, portanto, com toda a sinceridade, que não compreendo a razão da desistência de António Manuel Arnaut.

O limbo da sua decisão a todos permite pensar que este tinha consciência de que o seu resultado seria magro e que se terá apercebido de que a expetativa que lhe criaram se encontrava totalmente desajustada. Até porque fez o anúncio da desistência imediatamente após uma ação em que sentiu o vazio da plateia, totalmente despida de gente e de entusiasmo.

Como sempre, há sempre alguém a empurrar alguém. É um facto!

Lamento muito que tenha abandonado a corrida, pois confesso que apreciei a sua postura e a ética que impôs a muitos que o rodearam.

Só não compreendi a afirmação de que o processo eleitoral “encontra-se viciado”.

Facto ou uma opinião?

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