Opinião – É tempo de armar o tear

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Manuel Rocha

Manuel Rocha

A Santix, desta vez. Como se fosse um tear em marcha-atrás, o tecido regredindo para o novelo, o novelo regredindo para a planta – quando linho ou algodão – ou para o animal, sendo de lã a fazenda.

E daí para a terra, que é o lugar onde os mortos se recolhem, e se perdem. No passado dia 28 de Abril ainda era de esperança o semblante das operárias que, à porta da fábrica, exigiam que lhes fosse explicada a razão de terem sido enviadas para férias, ali transformadas em ante-câmara do despedimento.

Estive à porta da empresa na manhã dessa quinta-feira, ouvindo-lhes as razões que, no dia seguinte, levaria à tribuna da Assembleia Municipal. Disseram-me palavras de preocupação, falaram-me da vontade de regressar à linha de produção para ganhar o pão que já dois meses vai negado, na paga não cumprida pelos patrões.

Também no caso da Santix a Europa Connosco não nos tem valido. Haverá, porventura, quem se mova nos corredores de Bruxelas dentro de um fato fabricado no Picoto dos Barbados, ali a caminho de Vale de Canas. E seja, quem sabe, um dos decisores responsáveis pela ruína do sector têxtil português, capaz de exibir de uma vez só o fato português e inflamadas palavras acerca da competitividade das empresas e consequente necessidade de flexibilizar as leis laborais.

Na Santix, a flexibilização chegou tão longe que duas centenas de operários saíram das ditas “férias” para a porta do Instituto de (des)Emprego, na sua maioria mulheres.

Indiferentes às notícias das Santixes da nossa terra, as ladaínhas do empreendedorismo bacoco e da atração de “investimento estrangeiro” continuam a distrair-nos de nós. Entretida nos jogos de Casino, a Banca despreza o seu papel de incentivo à produção, boicotando ativamente o desenvolvimento de Portugal, gozando sempre as segundas oportunidades que são continuamente negadas às micro, pequenas e médias empresas. Persistente na senda do subdesenvolvimento, a direita persiste na tese de que a “melhoria” depende de um cocktail que conjugue desvalorização do trabalho com aumento de facilidades ao patronato do lucro-todo à custa de baixos salários. O costume, agora menos viçoso.

Mas hoje mesmo, na Fernão de Magalhães, a vontade de recuperar os postos de trabalho permanecia ainda na conversa das trabalhadoras da Santix com o eurodeputado Miguel Viegas. Muitas destas mulheres nunca antes tinham dado conta do poder da sua união, capaz até de habitar os ariscos noticiários da TV; nunca tinham percebido a necessidade do envolvimento na atividade do movimento sindical não colaboracionista; desconheciam a importância do uso da sua identidade política.

Depois de tantos anos passados em silêncio na linha de produção, muitas destas mulheres acabam de sentir o assomo da consciência de classe em quem sempre repetiu a frase suicida de “a minha política é o trabalho” – até que lho roubaram.
“Se fosse hoje talvez tivesse sido diferente”, dizia agora quem se achou desperta mesmo que breve tenha sido a luta. Que seja amanhã, então! Vai-se sempre a tempo – qualquer que seja o tempo – de armar de novo o tear.

One Comment

  1. Zé da Gândara says:

    Quem se lembra do então denominado Uruguay Round?
    Alguém sabe ou tem ideia de que se tratou este Uruguay Round?
    Alguém imagina que as negociações na WTO (OMC em Português, ou seja, Organização Mundial do Comércio) são feitas entre blocos comerciais (por exemplo, MERCOSUL, UE e por aí adiante) e que os Estados como Portugal não têm representatividade e capacidade de decisão nessas negociações?
    A UE para vender aviões aos Chineses, utilizou como moeda de troca o têxtil que dentro da UE era já quase exclusivamente fabricado em Portugal por ser um país de baixos salários e borrifou-se para o impacto social dessa política… E claro está que quem sabe apenas e só fabricar meias, casacos e saias, não aprende de um dia para o outro a fabricar aviões e como tal, benvindos ao mundo de miséria que por aqui se gerou… Pena é que a comunicação social sebentas cá do burgo não lembre isto à populaça e que ande a bajular sistematicamente os abutres que se prestam a continuar a trabalhar em sectores económicos incapazes de competir com as produções Chinesas e que para continuarem a manter o seu estilo de vida, esmifrem os trabalhadores até mais não para em última instância darem o golpe do baú e se meterem ao fresco com uma insolvência para trás e o saco cheio… Tudo, claro está, com o beneplácito das autoridades nacionais…

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