Opinião – O Livro dos Livros

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Elsa Ligeiro

Elsa Ligeiro

 

Para uma pessoa educada na religião cristã, a pergunta: Qual o Livro dos Livros?, tem resposta rápida e unânime: A Bíblia.
Livro fundador de várias religiões, a Bíblia surge naturalmente como o livro dos livros.
Ora a Bíblia não é um Livro, mas uma Biblioteca.
A Biblioteca mais frequentada, discutida e conhecida, antes e depois da grande invenção de Gutenberg.
Já no fim do século XX, George Steiner confessava, num dos seus livros, a sua perplexidade aodar-se conta que grande parte dos seus alunos (universitários e professores) dos cursos de verão que ministrava não o entendiam, quando na sua aula convocava uma metáfora bíblica, tendo como certo que a metáfora, anos antes, era do conhecimento comum.
Para um judeu assumido (e um cristão deslumbrado), a prática semanal (ou diária) de estudo dos textos sagrados – uma componente importante da sua vivência religiosa – o desconhecimento do Livro de Job (Teatro puro, segundo María Zambrano) ou o desconhecimento de figuras bíblicas como Judith ou Daniel, são do foro do escândalo e da revolução.
Por mim, reconheço que estes dois autores: George Steiner e María Zambrano, me aproximaram muito de alguns dos livros que compõem a Biblioteca dos Livros Sagrados.
Mas não fico indiferente aos argumentos de Milan Kundera, no seu livro A Arte do Romance, sobre esse também livro fundador de cultura que é D. Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, romance sobre o leitor e os outros: os que vivem o Mundo sem uma Biblioteca.
Nem à galeria de personagens criadas por Shakespeare que peça após peça nos revela com palavras (e são só palavras) as fragilidades e as grandezas da condição humana.
No entanto, se tiver que responder à pergunta: Qual o Livro dos Livros?, a minha resposta sincera será: Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Porque o Livro do Desassossego é uma Biblioteca em construção, uma possibilidade de livros infinitos, com a grande vantagem de ser um Livro do Leitor.
Bernardo Soares limita-se ao papel de instigador, de despertador dos livros que o Leitor já traz dentro de si; e convoca-o, com os seus fragmentos desarrumados, à criação.
A maior experiência para um bom Leitor ou para um candidato a Leitor é a de um livro que lhe pergunte: Quem és tu?, ou: O Que Procuras?
O autor convencional (a grande maioria) costuma responder com uma história entretida e com a moral apaziguadora do final: tudo está bem quando acaba bem.
Fernando Pessoa, no seu alter ego Bernardo Soares, ao contrário, cria com o seu Livro do Desassossego (um dos melhores títulos da História da Literatura) um jogo de contas de diamantes por lapidar, dando a quem ousa uma aproximação ao Livro, um retrato cruel de si próprio e dos que o rodeiam, mas também uma possibilidade de criação que não parece deste mundo.

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