Opinião – Notas soltas sobre política

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Norberto Pires

Norberto Pires

Primeira: O CDS fez um congresso e demonstrou a incapacidade dos partidos portugueses de se renovarem, bem como a enorme tentação que têm os seus líderes de viver na espuma dos dias.

Ficamos a saber tudo o que não interessa, pelo menos a mim, sobre Assunção Cristas, como a família, os filhos, o carro, os vestidos, etc., e não ficamos a saber nada sobre o que pensa, quais são as suas prioridades, qual é o programa que defende (só sabemos que já não defende o programa da defunta PàF que, certamente por lapso, tinha jurado ser o melhor para Portugal há somente 4 meses atrás), o que é que correu mal no Governo de que fez parte e como pretende agora fazer melhor.

Definiu, assim meio no ar, três coisas a que chamou “bandeiras” e que tinham a ver com reforma do sistema político, da segurança-social e da regulação dos mercados (passando pela nomeação do Governador do Banco de Portugal).

A parte “interessante” é que não explicou por que razão não fez essas reformas quando esteve no Governo, pois as pastas relevantes eram do CDS.

Na verdade, a segurança-social era tutelada por um ministro do CDS, as áreas económicas eram tuteladas por outro ministro do CDS e coordenadas pelo vice-primeiro-ministro que era também o líder do CDS, e a reforma do Estado era também, por acaso, missão de Paulo Portas – líder do CDS – que produziu para o efeito, ao final de muitos meses, um famoso PowerPoint e um documento escrito a Times-16 e dois espaços.

O resultado de todo esse “esforço” foi nulo e nada se reformou. Por que é que isto é relevante?, poderiam questionar os leitores com o argumento de que os políticos são assim, mudam de narrativa à medida das conveniências. Não tem nenhuma relevância, de facto, responderia eu, dada a insignificância do CDS, mas acrescentaria, à laia de justificação, que um dos partidos da PàF que tinha como mensagem central a ideia da “credibilidade” recuperada para o país, não tem a mínima credibilidade quando elege como “bandeiras” para o futuro missões do passado em que falhou redondamente.

Mas como “surfar” a espuma dos dias, com o beneplácito da comunicação social, é uma receita infalível em Portugal, lá tivemos a “renovação” do CDS (agora sem PP de Paulo Portas e de Partido Popular);

Segunda: “Seguinte, eu estou mandando o Messias com o papel…”, disse a Presidente Dilma num telefonema feito ao ex-Presidente Lula, no qual garantia que o nomeava ministro em caso de necessidade.Esqueceu-se que o seu telefone estava a ser “granpeado” – isto em português do Brasil tem mais piada. E foi um “cu de boi”, como se costuma dizer no Brasil.

Um juíz brasileiro divulga imediatamente a escuta telefónica na imprensa e nas redes sociais. O Presidente Lula responde e divulga documentos em sua defesa no site do Instituto Lula. De seguida, num jogo de reação, contra-reação e manifestações na rua, um juiz federal suspende a tomada de posse de Lula, minutes depois de Dilma o ter empossado.

Uma vergonha sem limites, dois presidentes apanhados nas teias da corrupção e um país que não vai sair nada bem desta história. E o impacto em Portugal não será de menosprezar.

Terceira: O novo Ministro da Educação anunciou que iria acabar com certas provas de avaliação e substituí-las por exames de aferição.

Ontem, a 2 dias do final do 2º trimestre, anunciou que afinal isso já não ia acontecer este ano e que dava liberdade às escolas para decidirem se realizam ou não as novas provas de aferição nos 2º, 5º e 8º anos, que têm data marcada para 6 e 8 de Junho. Fantástico. Fazer da Escola Pública um laboratório experimental de medidas mal pensadas, feitas a pedido e sem a devida ponderação e preparação, só tem uma consequência: a degradação acelerada de um dos pilares da democracia e da liberdade que é, justamente, uma escola pública de qualidade.

Também não percebo a FENPROF. Se o Governo fosse de “direita” já estaria na RUA a pedir a cabeça do ministro, mas desta vez preferiu o silêncio. São opções.

Quarta: Um futuro Primeiro-Ministro, atual líder da JSD, antecipou o congresso da JSD (de Dezembro para Abril) para poder ser eleito de novo como máximo “responsável” daquela estrutura de juventude do PSD.

O grande e promissor líder, que conseguiu “reunir o apoio consensual da estrutura” (sic) – isto agora é tudo de 99% para cima, à boa maneira da democracia da Coreia do Norte -, congratulou-se a um jornal dizendo que “ainda bem que posso ser recandidato…”, pois poderia, segundo ele, renovar “… algumas pessoas e repensar toda a linha de atuação política”. Fantástico! Já aprendeu, com os seus meros 30 anos, o que é que significa em politiquês “renovar” e como se joga no tabuleiro partidário, juntando o apoio unânime daqueles sempre dispostos a levantar o braço. Lindo!

Deixo-vos com uma frase de Lula da Silva de 1988: “No Brasil, quando um pobre rouba, vai para a cadeia, quando um rico rouba, vira ministro”.

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