Opinião – A vergonha já não mora aqui

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Joaquim Amândio Santos

Joaquim Amândio Santos

Preparava-me para começar a escrever estas linhas quando a minha atenção se prendeu com uma pequena notícia, qual nota de rodapé, no JN.

Referenciava o jornal que António Mexia, CEO da EDP, tinha quase duplicado a sua posição na empresa, depois de ter ido às compras de ações da empresa que dirige, aumentando assim a sua carteira de títulos EDP de 41 para 71 mil ações. O gestor, que entrou para a empresa ainda esta era pública e tem, no seu vasto currículo, uma longa permanência em cargos de gestão por nomeação política, recebe um salário anual que pode atingir 1,9 milhões de euros.

Adicionem a estes dados o anúncio oficial de que a EDP lucrou no ano passado 913 milhões de euros. Eu vou repetir: 913 milhões de euros. À luz do descrito, o que pensar sobre as declarações do homem-forte da EDP sobre a tarifa social? Defende que os custos da mesma não devem ser pagos pelas elétricas como acontece atualmente, mas sim pelo Orçamento do Estado, através dos impostos e, também, pelos restantes consumidores que não sejam considerados vulneráveis.

Ou seja, um ex-gestor público que lidera uma ex-empresa pública e que festeja quase mil milhões (!) de lucro de um grupo empresarial privatizado e que tem um real quase monopólio sobre um bem de primeira necessidade tem, perdoem-me o vernáculo, a distinta lata de exigir que sejam contribuintes e consumidores a pagarem a conta, para que não se toquem nos sagrados lucros obtidos à custa de preços excessivos e de um total desplante e uma perfeita covardia por parte da tutela política!

Depois temos Maria Luís Albuquerque.

O rosto das medidas de austeridade extrema, a voz doce que sempre nos pediu sacrifício em prol do oásis que aí viria é, desde há uns dias atrás, administradora não executiva (seja lá o que isso signifique na realidade…) de um grupo económico internacional, recebendo milhares de euros em troca de conselhos em part-time.

Previdente quanto à sua causa privada, nada de deixar o Parlamento, acumulando salário e continuando a poder influenciar a política nacional.

Não se lhe reconhecendo carreira internacional como gestora de ativos financeiros, quer Maria Luís proteste inocência, quer sequer que realmente o seja, esta contratação nem de perto, nem de longe, afasta as suspeitas de se apresentar como mais uma total e impune ligação dúbia entre o bem público e os interesses privados.

Fica-lhe mal. É inaceitável e, por mais que apregoe não ter cometido nenhuma ilegalidade, não vai nunca escapar da suspeição sobre a sua atuação enquanto membro do Governo e das ligações à finança, nos negócios ruinosos do BANIF, das SWAPS e afins. Mas não é só dos negócios público-privados que exalam cheiros nauseabundos.

Nas puras decisões políticas também se sente a crescente falta de nível de muitos protagonistas da vida pública nacional. Nunca privei pessoalmente ou profissionalmente com António Lamas. Mas o trabalho que vem realizando, ao longo de sucessivas comissões e por muitos e bons anos, sem ostentações mediáticas, conduzindo políticas culturais públicas com qualidade e gestão rigorosa, falam por ele e pela sua capacidade profissional.

O que fez em Sintra, a sua participação na construção e desenvolvimento do CCB, Centro Cultural de Belém, a sua reconhecida capacidade para tornar os equipamentos públicos culturais mais apelativos ao público e, como tal, mais merecedores de usufruto, são cartões de visita suficientes para o recomendar como gestor público.

Ser demitido de forma rude, deselegante e assaz bacoca por João Soares, num alarve mais próprio de um comissário político do que de um Ministro da Cultura, cujas únicas qualidades visíveis se prendem com o seu sobrenome dinástico e a sua carreira política nos corredores do poder, sem obra pública feita nem chama intelectual que o recomende, acaba por se transformar num sólido aplauso à competência de Lamas.

Mexia, Albuquerque, Soares e companhia.

Três de muitos exemplos possíveis daquilo em que se transformou a vida política nacional.

As carreiras políticas são, cada vez mais, ou plataformas de passagem a caminho dos contratos milionários no setor privado, em funções diretamente relacionadas com atividades que anteriormente tutelavam ou, quando ainda assumidas, posições que se transformam em momentos de arrogância apoucada, conduzindo esta 2ª República a um estertor pleno que anuncia uma cada mais previsível e dolorosa morte próxima.

O último a sair, por favor não se esqueça de desligar a luz e fechar a port

One Comment

  1. LusitanoCom says:

    A política tornou se no bem económico mais apetecido. O abocanhar do bem público, o aproveitamento da exposição mediática associada a vida política e uso das influências daí obtidas atestam a desconfiança crescente do cidadão em relação a essa nova classe social de colarinho branco.

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