Opinião – Coisas soltas, e graves!

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Norberto Pires

Norberto Pires

Governador do Banco de Portugal: A atuação do Governador do Banco de Portugal tem sido muito infeliz, pelo que considero que nunca deveria ter sido reconduzido. Esse foi mais um dos péssimos serviços prestados ao país por um Governo em agonia.

Perante isso, é perfeitamente legítimo que o Primeiro-Ministro (PM) e o Ministro das Finanças (MF) lhe façam sentir isso a sua opinião, fazendo a devida nota pública. O que não me parece bem é a partidarização de um assunto que é, e deve continuar a ser, um assunto de Estado, isto é, que deve exigir um relacionamento frontal entre as instituições envolvidas: Governo e Banco de Portugal.

Quando a critica é feita frontalmente e com verdade não está em causa a Independência de nenhuma instituição, mas tão somente a respetiva atuação e competência revelada pelos seus responsáveis. A independência não pode significar nunca ausência de critica ou de escrutínio, pois essa atitude de paninhos quentes não resolve nada.

Antes pelo contrário, como todos sabemos. Em democracia vale a frontalidade e a sinceridade. E a visibilidade pública é, como todos sabemos, um pau de dois gumes e uma forma de ser preso por ter cão e por não o ter. Se O PM não dissesse nada, era porque era conivente e igual a todos os outros, diriam muitos. Se o faz, é porque é pouco ético e não tem caráter. A regra, para mim, é sempre a mesma: ser frontal e verdadeiro. Se o PM o foi, tem o meu aplauso;

Cheias: Há pouco mais de um mês, nas primeiras cheias do Mondego de 2016, a “culpa” era da EDP que mandava abrir as comportas da Aguieira sem querer saber de Coimbra. Agora, uns dias depois, afinal é o facto de o rio não estar desassoreado, limpo, cuidado, a fazer fé numa notícia que li no Diário As Beiras do dia 16 de Fevereiro no qual se afirmava: “A necessidade de proceder rapidamente ao desassoreamento do rio é a conclusão proativa que a Câmara Municipal de Coimbra retira das cheias na cidade…”.

Aparentemente, numa permanente fuga para a frente, o importante é encontrar um culpado e sacudir a água do capote. Neste afã persecutório nem se dão ao trabalho de ver o que se passa no Douro Internacional, um rio onde, apesar das condições climatéricas que fazem com que o nível da água suba 6 a 7m acima do nível médio, tudo funciona pois toda a gente se prepara para estes eventos.

Estão preparados, monitorizam, cuidam dos seus bens e interesses e sabem que para minimizar riscos existem vários fatores a considerar: cuidar, limpar, prever, educar, desenhar e construir sistemas que ajudem a minimizar efeitos naturais, etc. Ah! E não construir em leito de cheia, também ajuda…. ou não guardar coisas valiosas em locais desse tipo. Em Coimbra, depois de vários milhões de euros perdidos, de cheias sucessivas, de perdas permanentes em património, conclui-se que afinal é preciso desassorear e limpar o rio;

“Tirem a cabeça da areia! Por Coimbra!”: era este o texto escrito numa enorme tarja espalhada em mãos no rio Mondego por um conjunto de desportistas náuticos fartos de encalhar na areia do rio. Foi em 2006. Os vários jornais da cidade deram nota, e publicaram fotos, da fila indiana de pessoas que, no meio do rio, de tarja na mão e com água pelos joelhos, alertavam para o problema. Nada foi feito. Continuou-se a acumular lixo e areia e, aparentemente, o resultado está à vista. Foram necessárias as duas cheias de 2016, milhões de euros de prejuízo, bens privados e públicos perdidos, negócios arruinados, para proativamente perceberem que afinal era necessário desassorear o rio.

Mas é mais fácil, muito mais fácil, construir em leito de cheia sem se antecipadamente se precaver, não querer saber de nada, não ser previdente com o património público e privado e, quando as coisas acontecem, porque a natureza detesta que a desrespeitem e reage com violência, simplesmente atirar para os jornais que não se acredita que “no século XXI as cheias não sejam erro de alguém”.

Esse alguém sempre desconhecido e milagrosamente inimputável.

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