Opinião – Descarrilamento previsível

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Aires Antunes Diniz

Aires Antunes Diniz

Há poucos dias, como viajante frequente na Linha da Beira Alta, tal como muitos portugueses atentos ao País fomos confrontados com o descarrilamento previsível de uma automotora que descarrilou perto de Contenças, pondo em risco as ligações no centro do país. As notícias saídas no Público de dia 11 de janeiro de 2016 (p.8, coluna 5 ) dão conta de que tudo era previsível.

Nesse mesmo dia soubemos de problemas na linha do Douro que tinha sido objeto de documentário de que fui avisado por email via Espanha: “En la RTP2 el dia 2 de Enero por las 21:45 ( 22:45 en España) se emitirá un documental”, em que vergonhosamente deram bem má conta de si os responsáveis pelas nossas ferrovias.

Antecipava esta história uma notícia surgida “Em 5 de Outubro de 1844 aparecem em Londres, nas páginas do «The Railway Chronicle, as primeiras notícias sobre a introdução dos caminhos-de-ferro em Portugal. Segundo este semanário fora apresentada uma proposta ao governo para a construção de uma linha entre Lisboa e o Porto, passando por Santarém e Coimbra” . Sete anos depois D. Pedro V no seu Diário: “Creio que nem em Espanha se escreveram mais asneiras sobre caminhos-de-ferro do que em Portugal, chegando a haver alguns que disseram que um caminho de ferro esgotaria dentro em pouco os recursos do País» (Teixeira, 1956, p. 29 ) 1.

Infelizmente, os responsáveis ferroviários prosseguiram nesta senda, o país recuou e até a Linha da Lousã desapareceu por razões, que os tribunais não conseguem deslindar. Em Trás-os-Montes desapareceram as linhas do Tâmega, do Corgo, do Tua e do Sabor, sem que ninguém se tivesse preocupado em inquirir os decisores acerca das razões que os levaram a encerrá-las. Entre a Guarda e a Covilhã falta ainda requalificar uns quilómetros de ferrovia que tanta falta faz à Beira Interior. Tudo se deve talvez à falta de capacidade técnica, estratégica e de inteligência para prosseguir e manter o Plano de Ligação Ferroviária do País que a República herdou da Monarquia.

Dizem-me os meus amigos, que sabem mais do que eu de transportes ferroviários, e estudam com rigor e afinco o problema ferroviário português, que falta aos responsáveis capacidade de fazer e ler os estudos necessários às decisões. Decidem por isso tudo à matroca e não são confiáveis como gestores.

Infelizmente, dizem-me os jornais que os jornais administrativos e fiscais estão a atingir o limite. Espero por isso que os tribunais criminais peguem nestes muitos casos e lhe deem a solução que a Pátria precisa.

1 – Teixeira, Luiz – Crónica da Fundação dos Caminhos de Ferro em Portugal, Edição do Centenário, Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, Lisboa, 1956, pp. 12-13 e p. 29.

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