Opinião – Ruído

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António Tavares

António Tavares

Ernesto Sabato, escritor argentino que morreu a dois meses de completar cem anos, escreveu em toda a sua longa vida apenas três romances.

Também J. D. Salinger, um americano que morreu com 91 anos, escreveu pouco mais e, algumas das poucas obras que nos deixou ficaram incompletas. Poderia citar ainda o caso de Harper Lee, também americana, que vai nos seus oitenta e nove anos de vida e que tinha, até há dias, apenas um livro editado e é considerada um marco da literatura universal.

Há assim quem, com poucas palavras, diga tudo ao mundo. O filósofo Sócrates falou pouco e disse muito, e Cristo também não foi palavroso na sua mensagem. Se pudéssemos imaginar a enormidade astronómica de palavras – e falo só das escritas – que morrem sem deixar rasto, que despareceram no tempo e na escuridão, que se transformaram em vozes solitárias a ocupar um cemitério enorme e silencioso, uma sucata de onde jamais serão recuperadas, se pudéssemos imaginar isto, talvez seguíssemos os exemplos que acima referi.

O que sabemos é o que o povo nos diz: quanto mais se fala (e escreve) mais tolices nos arriscamos a dizer. E se falamos e escrevemos hoje duma forma banal, como acontece na lixeira obsessiva das redes, e noutros meios, claro, mais tendemos a errar. O ruído tornou-se compulsivo: não há nada que não se diga. Há quem saiba de tudo e se exprima sobre tudo. Infelizmente a barulheira é imparável.

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