Opinião – Jorge Bento

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Norberto Pires

Norberto Pires

Quando em 2013 concorri à Câmara Municipal de Condeixa, já conhecia o Presidente da Câmara Jorge Bento há algum tempo. Acompanhava a sua ação como autarca e a sua intervenção cívica com interesse e curiosidade. Quando fui presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, em 2012, tive oportunidade de acompanhar de mais de perto a sua atitude, a forma como entendia o papel das autarquias, a relação com os organismos de coordenação regional e com o poder central, e testemunhei pessoalmente a coragem que tinha em deixar claras as suas posições. A doença que o havia de vencer já o atacava nessa altura. Confessou-me que não desistia, mas que existiram momentos, no ano anterior, que lhe trouxeram pensamentos de desânimo que, no entanto, rapidamente afastou. Um dia, de 2012 (Março ou Abril), soube que ele ia ser operado em Lisboa no Miguel Bombarda. Era uma operação crítica. Aproveitei uma das minhas viagens frequentes à capital, em funções como presidente da CCDRC, para o visitar e lhe deixar um dos meus livros preferidos (que ofereço a pessoas especiais): “Cidades Invisíveis” do grande escritor italiano Italo Calvino. Parei numa das minhas livrarias de culto de Lisboa, no Saldanha, comprei o livro, escrevi uma dedicatória e fui deixar-lhe o livro. Não lhe pude falar, porque não era permitido por razões médicas, mas lembro-me de ter pensado, o que escrevi de certa forma na dedicatória, que este livro tinha tudo a ver com ele. Na verdade, “Cidades Invisíveis” é muito mais que uma soberba e inspiradora obra literária de um fantástico escritor. É também motivo de reflexão, e ponto de partida de investigação, sobre o fenómeno urbano e sobre a forma como deve ser abordado. Os ensinamentos que contém permitem que encaremos as cidades como universos bem mais complexos do que podem parecer à primeira vista, que incorporam dinâmicas próprias que têm de ser entendidas antes de qualquer intervenção. Deixa-nos por isso bem marcada a ideia de que cada cidade é única na sua paisagem, bem como na forma como o seu espaço é construído e vivido pelos seus habitantes, sendo por isso infinito o número de possíveis cidades. E que a missão de um autarca é saber olhar a sua cidade/vila com distanciamento, saber entendê-la e apreciá-la, sendo capaz de perceber quais os elementos diferenciadores que pode introduzir para, justamente, desenvolver aquilo que a caracteriza e faz única. Jorge Bento tinha essa ideia de tornar Condeixa “mais moderna, atrativa e sedutora”, pelo que pensei que gostaria de conhecer o Italo Calvino.

Falávamos com regularidade, e encontrava-o com frequência ao fim-de-semana em Coimbra. Foi impecável na forma como me recebeu na câmara, na forma como me apresentou aos serviços, no cuidado com que me explicou Condeixa e na forma subtil como me alertou para as suas particularidades. Guardo com particular carinho a informação detalhada sobre as pessoas, sobre os costumes, sobre o que na sua opinião deveria ser feito, mas especialmente, na paixão com que falava de Condeixa. Era um homem sério, de quem era fácil gostar.

Tinham-me avisado que era também um homem muito duro com os seus adversários políticos. Implacável, até. Nunca o testemunhei, apesar de achar que nunca me viu como adversário, mas mais como uma pessoa que ele próprio respeitava, por quem tinha carinho e que lhe deixava uma certa vaidade por querer concorrer à câmara da sua vila. Era um homem de sorriso fácil e contagiante, disponível e estruturalmente sincero. Lembro-me de pensar, várias vezes, identificando-me com certos aspetos da sua personalidade, que era mais ou menos como um bom malandro. Duro, mas correto. Exigente, mas compreensivo. Implacável, mas consciente e capaz de reconhecer erros. Moderadamente egocêntrico, mas com o desprendimento necessário para tornar isso útil e eficaz. Muito trabalhador, muito dedicado e muito preocupado com o futuro.

A doença venceu-o ontem, dia 2 de Dezembro de 2015. Fica-me para sempre a amizade, que várias vezes teve o cuidado de me demonstrar, o respeito pessoal e político, e a imagem de imensa coragem. Recordarei sempre o Jorge Bento com enorme carinho e consideração. E a vida é isso: momentos, pessoas, imagens e sentimentos. Até um dia.

 

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