Opinião – A ilusão dos rankings – 2

Posted by
António Gomes Ferreira

António Gomes Ferreira

A qualidade das escolas não pode ser apreciada apenas pelas tabelas dos rankings e dos títulos que a imprensa adora apresentar.

O mal não está propriamente no expor dos dados mas no modo como estes são usados. Vendo-se os rankings das escolas como resultados de competições, o que mais importa é estar à frente. Basta estar nos dez primeiros lugares para toda uma organização escolar exultar com isso.

Contudo, Coimbra não deixa de se orgulhar de ser um município de grande qualidade escolar e não tem nenhum colégio no top ten, considerando os resultados do nono ano. E que importa isso, se tem escolas que trabalham bem e se empenham num ensino com resultados que prenunciam preocupações com o sucesso escolar?

Na primeira parte, apenas referi instituições de ensino privado que de algum modo captam públicos de características socioculturais mais favorecidas e não mencionei escolas públicas, sendo que algumas se intrometem sem receios no mesmo espaço de captação como são os casos da Escola Secundária Infanta D. Maria (Coimbra), Escola Secundária Mário Sacramento (Aveiro) e Escola Secundária Alves Martins (Viseu), que se situam entre o 28º e o 46º lugares.

Mais escolas públicas de outras cidades podiam ser citadas para mostrar que nas cinco, seis dezenas de escolas a diferença da média dos exames está no intervalo das oito décimas. É preciso ultrapassar as oitenta escolas públicas e privadas para termos um valor de diferença na média dos exames entre a primeira e a 81ª. Há, seguramente, muitos bons alunos por todos estes estabelecimentos escolares públicos e privados.

No ensino secundário verificamos a mesma prevalência do ensino privado nos primeiros lugares do ranking. Agora, apenas temos maior evidência de Coimbra porque nos três lugares da frente vemos o Colégio de Nossa Senhora do Rosário (Porto), seguido do Colégio Rainha Santa Isabel (Coimbra) e do Colégio de São Teotónio (Coimbra).

As primeiras escolas públicas surgem já na 28ª e 29ª posições, com, respetivamente, a Escola Secundária Clara de Resende (Porto) e a Escola Secundária Infanta D. Maria (Coimbra). O que ressalta de mais significativo relativamente ao 9º ano é que o ranking do secundário mostra que há uma maior variação nas médias, pois regista três valores de diferença entre as primeiras 50 escolas públicas e privadas do país.

Curiosamente, para variar mais um valor é preciso percorrer mais de cem lugares do mesmo ranking. É evidente que a competitividade se joga sobretudo no Secundário, pois as médias variam entre 15.12 e 12.13 nos cinquenta primeiros lugares. Tudo parece indicar que as condições socioculturais são aqui decisivas. Sublinhe-se que nas cinquenta primeiras escolas não existe nenhuma que se possa considerar do interior.

Olhando com olhos de ver, vemos a desigualdade do país refletir-se na escola que temos e equívocos sobre como proceder para melhorar o sucesso escolar. Elaboram-se rankings mas não é claro o que se pretende com eles. Claro, quem está bem nos rankings tenderá a reforçar a sua situação, consolidando a marca através de um processo seletivo que não coincide com a comunidade territorial.

Mas há muitas escolas que mostram grandes dificuldades em apresentar resultados globais satisfatórios e prenunciem possibilidades de aprendizagem idênticas a outras mais centrais. São vítimas das circunstâncias territoriais e das desiguais condições de concorrência. Em alguns títulos da comunicação social e nos comentários na imprensa transparece a ideia de que tudo resulta da falta de rigor dessas escolas e dos seus atores.

Umas vezes, alguns tenderão a encontrar a solução no modelo de gestão privada, esquecendo que há muitos estabelecimentos privados muito mal colocados nos rankings escolares; outros entenderão que a solução passa por novas formas de recrutamento de professores. Nunca o país teve tantos bons professores e nunca teve escolas tão capazes de encontrar soluções adequadas aos problemas que enfrentam.

Eles precisam, obviamente, de ser responsabilizados pela evolução do sucesso dos alunos mas têm de ter possibilidades de fazer as suas leituras dos problemas e de organizar a escola em função das características da sua população. Sentindo que não lhes dão a responsabilidade da transformação, olham para os rankings com voyeurismo inconsequente. Por sua vez, o ministério pensa que já fez o suficiente com os exames e os rankings. Mas não é com eles que se melhoram as aprendizagens.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.