Opinião – Seguros de vida

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José Manuel Pureza

José Manuel Pureza

Cavaco Silva tentou tudo para que não houvesse um Governo com apoio parlamentar maioritário à esquerda. Mas teve, enfim, que se render à democracia.

Mal anda esta quando o estado de alma do Presidente da República, qualquer que ele seja, condiciona o cumprimento da regra essencial de que um Governo com apoio maioritário no parlamento é uma solução, não um problema.

Os seus defensores dizem que foi o seu sentido da defesa do interesse nacional que o moveu a levantar resistências ao Governo do PS agora empossado. Pois o problema está mesmo aí. Foi o sentido peculiar de interesse nacional de Cavaco Silva que o fez exigir a António Costa garantias de estabilidade do sistema financeiro e a não exigir nenhuma estabilidade dos salários ou das pensões.

Foi o seu sentido de interesse nacional que o levou a exigir a António Costa garantias de duração e de apoio maioritário depois de ter dado posse a Passos Coelho para ser Primeiro-Ministro de um Governo sem nenhum desses requisitos. Foi ainda o seu conceito de interesse nacional que o fez ameaçar o novo Governo com um exercício inclemente e temível de todos os poderes que lhe restam (quais, não disse porque não havia nada para dizer…) ao mesmo tempo que foi complacente com a venda da TAP ou a nomeação de uma centena de boys e girls dos partidos da direita para quadros superiores da administração por um Governo demitido no último dia de funcionamento. Estranho interesse nacional este…

Não é só a dualidade de critérios que deve chocar. É a defesa militante de um projeto social e político que essa dualidade recobre. Antes, durante e depois da Troika, Cavaco foi o seguro de vida de uma direita apostada em diminuir o mais possível o espaço da democracia social e económica, em desfigurar o regime constitucional e em tornar a relação com a Europa num dispositivo disciplinar contra o Estado Social.

A direita não tardará a afastar-se de um Cavaco condenado à irrelevância. Essa direita dos negócios e da tecnocracia, que tirou o tapete ao presidente nesta crise por ele criada, é a direita de sempre. E o seu candidato presidencial, Marcelo Rebelo de Sousa, será o seu novo seguro de vida.

O charme mundano, moderno e centrista de Marcelo é a aparência que a direita quer assumir rapidamente para tentar mudar o filme de terror em que mergulhou. Mas diz o povo, e com razão, que as aparências iludem.

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