Opinião – O comboio e a cidade

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Gil Patrão

Gil Patrão

Lamentamos a perda de velho comboio que circulava em ramal centenário e maldizemos quem o prometeu trocar por metro que nunca surgiu, o que nos obriga a ser transportados há tempo demais em camionetas poluentes. Estas roncam para vencer curtas distâncias, evocando esses sons as enganosas melodias habilmente entoadas pelo governo de então e seus coros de débeis políticos locais. Todos mentiram, enquanto tudo prometeram. Como é tão triste este nosso fado!

Certos autarcas e forças vivas da região teceram loas ao prometido metro ligeiro de superfície que ligaria Serpins, Lousã e Miranda do Corvo a Coimbra, facilitando o fluxo de pessoas nesta pequena região rural e urbana. Perdido definitivamente o metro, parece que todos esquecemos que há outros comboios que devemos aproveitar, se queremos ter muito maior desenvolvimento.

Coimbra é servida por linhas ferroviárias onde circulam alfas, rápidos e comboios regionais, parando alguns em todos os apeadeiros e estações. Para norte por Aveiro, para sul por Pombal, para oeste até à Figueira e para leste pelo Luso e Mortágua, há diversos comboios regionais que proporcionariam fluxos pendulares a quem reside nalguns dormitórios da capital da região e trabalha em Coimbra, se a frequência e os horários dos mesmos servissem as populações abrangidas, que não precisariam então de utilizar tantas viaturas próprias como acontece agora.

Alterar a situação atual passa por persuadir a CP a mudar horários e a articular serviços de transporte com outros operadores públicos e privados. É também para isso, e para planear cidades e regiões, que há câmaras e comunidades intermunicipais. Não é só para edificar jardins e esplanadas, que são úteis e não devem ser ignorados, mas há que saber antever o futuro para satisfazer necessidades. Coimbra é terra pequena, embora seja cidade média, sendo crucial para desenvolver toda esta região expandir a mobilidade urbana para fora dos limites da cidade. Cabe ao executivo municipal da urbe liderar o processo, por Coimbra ser charneira doutros territórios.

Articular serviços de transportes coletivos urbanos entre municípios vizinhos exige grande cooperação entre as autarquias que visem servir melhor os munícipes. São exemplos Condeixa e Coimbra, que distam entre si uma dúzia de quilómetros e já deviam ter uma rede partilhada de transportes coletivos, ou Coimbra e Cantanhede, que merecem ser unidas e não ficar separadas por 23 km de estrada, quase a mesma distância que afasta Penacova ou Poiares de Coimbra.

Teremos solução do Governo para substituir as arcaicas automotoras do ramal da Lousã, mas não temos redes de transportes coletivos que liguem eficazmente e com custos reduzidos cidades, aldeias e vilas onde vive muita gente que trabalha num lugar e reside noutro. O que todos gastam em gasóleo e gasolina, sendo devidamente calculado por uma escola da região, despertará consciências e motivará ações! Aceitará a Universidade, ou o Politécnico, este repto?

Desenvolvimento não é apenas crescimento. Desenvolver implica garantir idêntico bem-estar a quem vive em qualquer parte do país. O que não depende unicamente do governo da nação. Depende muito mais de quem se preocupa com a terra em que vive mas, sobretudo, depende de quem aí ocupa e exerce o poder local e regional! Coimbra e a Região Centro precisam de gente com visão esclarecida, que se empenhe em erigir melhor futuro e assegurar um maior progresso!

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