Opinião – Figurantes

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Bruno Paixão

Bruno Paixão

A polémica criada em torno dos cartazes publicitários dos principais partidos candidatos às legislativas de outubro chegou em plena silly season.

Embora a época balnear possa sugerir que este seja um tema frívolo, há razões para não crermos que assim seja e que há algo mais a sustentar as razões dos críticos.

Desde logo, todos os que vaticinavam a perda de importância dos outdoors nas campanhas eleitorais enganaram-se redondamente. Eles continuam a ser um instrumento preponderante, a bandeira dos partidos, a evocação das causas, a palavra-chave, o raciocínio direto e objetivo. Creio que o seu impacto nos resultados não é residual: capta indecisos, mobiliza apoiantes e gera ondas de apoio.

Mas tal como em toda a esfera da comunicação, a forma como os cartazes são percecionados pelos eleitores sofreu mudanças importantes. Cada vez mais a estética tem vindo a ganhar peso, a par dos conteúdos.

Quem não se lembra daquele outdoor em que Manuela Ferreira Leite surgiu sobre um fundo cinzento, sentada, mãos sobrepostas, com um número de telefone ao lado, criado para receber sugestões dos cidadãos? Deu azo a comentários jocosos. A blogosfera criticou o cinzentismo, a montagem artificial e maquilhada da campanha da então líder social-democrata.

Hoje, foi o PS a tornar-se o alvo das apreciações nas redes sociais. Primeiro com a mensagem da desempregada de longa duração, cuja falta de trabalho se iniciou, afinal, ainda no último mandato socialista. Depois, ao saber-se que as histórias dos outdoors não correspondem à vida das pessoas que lhes dão o rosto.

As histórias não são as suas. O PS assumiu o erro e pediu desculpa. Fez bem. Mas, veja-se, estes outdoors, apesar de ingénuos, cumprem o seu papel, transmitem a mensagem central, ao mesmo tempo que procuram ser emotivos e captadores da cumplicidade do eleitor.

É normal (e muitas vezes desejável) o recurso a figurantes. Mesmo o cartaz da coligação PSD/CDS valeu-se de uma foto de um homem francês que foi retirada do banco de imagens Shutterstock. Choveram críticas também. O pior é que a censura, de uma parte e da outra, vem do lado de quem sabe muito bem que isto é normal.

Os outdoors converteram-se, à falta de melhor, no alvo dos ataques políticos – o que vem dar guarida à ideia de que a silly season continua a ser uma hipérbole da vulgaridade…

Nesta batalha sangrenta, não há ideologia, não há respeito, não há compromisso. Há apenas marketing. No ponto em que os cidadãos se encontram, não é difícil de imaginar que estas novelas conduzem ao inevitável declínio da confiança.

Logo, não pode haver vencedores no braço-de-ferro dos cartazes. Há divertimento, espetáculo, má exposição mediática, mas nada disso tem a ver com o sentido de voto.

Os cidadãos esperam que os adversários Passos Coelho e António Costa mostrem o que valem, falem a verdade, estejam à altura das circunstâncias e esclareçam como pretendem governar o País. Que não usem maquilhagem nem se deixem substituir por figurantes.

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