À conquista das praças dos “nuestros hermanos”

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Unidos pelo amor à tauromaquia e pelos laços de amizade que os ligam há vários anos, 14 dos “irmãos” do Grupo de Forcados Amadores Académicos de Coimbra fizeram história.
Foi no passado dia 15 de agosto, que atuaram, pela primeira vez na história do conjunto, numa arena fora das fronteiras lusitanas. “Nuestros hermanos” – mais concretamente Zorita, uma localidade espanhola localizada na província de Cáceres – foram os anfitriões da corrida de touros que, como é tradicional, juntou muito sangue, suor, lágrimas e, diga-se, uma boa dose de “cojones” (ou coragem, para os mais conservadores).
Dia 14, meia-noite. Depois das cinco horas de viagem, e já feita a instalação no pavilhão desportivo do município, que, gentilmente, cedeu o espaço ao grupo conimbricense, seguiu-se uma “volta de reconhecimento” pelas redondezas. A vila estava em festa – assinalava-se o Dia do Município – e o caloroso ambiente das ruas obrigava os mais preguiçosos a tirar os pés de casa.
A desconfiança começava desde cedo… “O quê?! Vocês metem-se à frente dos touros? Não acredito, estou a mentir!”, respondiam, incrédulas, as jovens castelhanas mais céticas. À resposta afirmativa, “contra-atacaram”: “Ai é? Mostrem-nos vídeos disso!”. Seria o arranque de uma noite calma – algo raro entre este grupo de forcados -, já que o dia seguinte seria “dia de corrida”, uma ocasião encarada com máximo de responsabilidade.
15 de agosto… A ansiedade começava a crescer à medida que os ponteiros do relógio se aproximavam da hora da pega. O desejo de encarar o touro misturava-se com o receio natural de quem enfrenta um animal de meia tonelada, olhos nos olhos. A preparação começa com aplicação do tradicional “traje”… Jaqueta, camisa branca imaculada, cinta vermelha e, claro, o barrete. Este último acessório tem a particularidade de nunca ser lavado, perpetuando, assim, no sangue deixado pelo touro e pelos homens, a coragem de quem, em algum momento da sua vida, encarou o bicho de frente, sem farpas e espadas nas mãos.
19H00, em Espanha; hora da corrida. Os “famosisimos forcados de Portugal” – como eram apresentados no cartaz do espetáculo – não deixaram que o medo “paralisasse” a bravura das fardas que envergavam e, com mais ou menos dificuldades, apresentaram duas excelentes pegas ao público espanhol. Os castelhanos, pouco acostumados à tradição portuguesa, vibraram nas bancadas e não pouparam nos aplausos, com os forcados a sair da arena com o mesmo “estatuto” dos adorados matadores.

O medo que quem vê os filhos à frente do touro
“Nem consigo apreciar a pega. Estou sempre de olho neles, com o coração nas mãos”, confessa Dulce  Simões, mãe de dois dos forcados e aficionada da tauromaquia desde criança, admitindo que, com o passar do tempo, tem sido mais fácil gerir estas emoções. No final, com o touro “domado” e toda gente em segurança, o coração “descansou”.

Os copos e o pato Peter
Terminada a corrida, era hora de celebrar. Sacudiu-se a poeira da praça, lavaram-se as caras e… copos. Os companheiros de tourada fizerem questão de cumprir a tradição e reuniram-se ao jantar, para um momento de convívio e boa disposição, depois da conquista nas arenas espanholas. Aos discursos, brindes e brincadeiras, seguiu-se uma noite de copos (relativamente tranquila, já que passado poucas horas participavam numa corrida na Figueira da Foz).
O (merecido) descanso foi adiado, e trocado por um serão marcado por muitas danças, “palhaçadas” e copos, que só terminou no início da madrugada.
Esta “jornada” teve, ainda, uma aquisição muito “particular”. O pato Peter, comprado em Espanha pelo espirituoso forcado Rui Castro Pita, juntou-se ao grupo, tornando-se o 16.º elemento e “mascote” do conjunto, que se fazia, também, acompanhar por João Cortesão, ex-forcado, aficionado e pai de dois dos “heróis”: Jaime e António Cortesão, este último Cabo do grupo.
Dois dias de aventura pelas terras castelhanas, onde, para além do sangue derramado, deixaram a marca de camaradagem e lealdade de uma “equipa” que procura ganhar o seu espaço no panorama nacional da tauromaquia, ainda dominado, maioritariamente, pelos grupos do Ribatejo e Alentejo. A “receita”, essa, já está definida e é comum a todos os forcados: honrar a jaqueta que envergam e colocar Coimbra no “mapa dos touros”.
| Bernardo Neto Parra
(em estágio)

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