À aventura nas terras de fronteira sem turistas nem glamour

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tomane rocha

António Manuel Rocha é um emigrante “à antiga portuguesa”: comerciante, aventureiro, miscigenador. Tudo isto e ainda uma extraordinária habilidade para cozinhar comida para viajantes, camionistas e negociantes fazem deste cinquentão sempre bem disposto um caso raro de sucesso no esquecido, mas ainda tumultuoso, território da fronteira entre Angola e a Namíbia.

António Manuel, Tomané para os amigos, nasceu em Angola mas é na Namíbia que vive e trabalha, há 35 anos. Empresário da área da hotelaria e restauração, é um dos pouquíssimos portugueses a investir, e ganhar, no importante eixo rodoviário que liga as cidades de Ondangwa, no antigo Sudoeste Africano, e Ondjiva, antiga Pereira d’Eça, a capital da província angolana do Cunene.

Rocha’s é a marca registada dos negócios do emigrante com raízes bairradinas. São dois hotéis e dois restaurantes que gere com a ajuda da mulher, a mulata Paula Medeiros (filha de pai português e mãe angolana), e do irmão, José Rocha. É, acima de tudo, um refúgio de portugalidade numa geografia de contrastes, onde o negócio é a vida, montado em torno das imensas oportunidades que a fronteira oferece: petróleo, minérios, agro-pecuária, a norte; serviços e mercadorias de valor acrescentado, a sul.

Dois Rocha’s
Um dos hotéis Rocha’s fica em Oshikango, a cidade fronteiriça de duty free, que se eleva a mais de 1.000 metros de altitude. O seu restaurante é talvez o mais movimentado de toda a zona. A “culpa” é dos angolanos – em trânsito de negócios –, grandes apreciadores da boa e farta cozinha portuguesa.

O outro Rocha’s é a “base” de António Manuel. Localizado bem no coração da cidade de Oshakati, capital da província do Ovamboland, o hotel/restaurante enche-se diariamente de namibianos e, uma vez mais e sobretudo, de angolanos, aqui chegados também em demanda de serviços de saúde.

É aqui que o empresário português vive e recebe os amigos desde 1995. São duas décadas de aprendizagem dos caminhos da paz, na Namíbia, primeiro, e em Angola, depois. Duas décadas de crescimento e de consolidação de uma empresa de matriz familiar que vingou onde outros não ousaram arriscar – em Oshakati, de resto, apenas dois outros portugueses partilham a vida dos negócios.

Mas nem sempre foi assim, para António Manuel Rocha.

Nascido em Viana, a cidade industrial dos subúrbios de Luanda, há 54 anos, depressa foi recambiado para Portugal. Veio “empurrado” por um tio, militar, temente do efeito propagador dos primeiros combates levados a cabo pelos terroristas, como lhes chamavam os colonizadores, ou pelos movimentos de libertação, como ficaram conhecidos.

Da grande cidade, que não conheceu, Tomané veio para a pequena aldeia de Famalicão, junto a Anadia. Aqui estudou e fez a 4.ª classe. E bem perto, em Malaposta, começou cedo a trabalhar, primeiro numa oficina de motorizadas e depois numa outra, de serralharia e molas de camião. Não admirou, pois, que as corridas de duas rodas e, acima de tudo, o motocrosse – a par do râguebi, na Moita –, rivalizassem com as raparigas no jogo de interesses de uma adolescência de trabalho e felicidade, apesar de longe dos pais.

Regresso a África
A família, no entanto, acabaria por ser a razão do seu regresso a África. Após a revolução e a independência de Angola, os pais tinham-se refugiado na Namíbia do norte, na altura ainda sob domínio sul-africano. E, em 1980, António Manuel decidiu-se a aproveitar o ofício de serralheiro na grande mina da então trepidante cidade de Tsumeb, onde os enormes filões de cobre e chumbo também deixavam extrair alguma prata e até ouro.

Como os Rochas, centenas largas de outras famílias portuguesas tinham também procurado na cidade mineira um novo rumo para as suas vidas. Uns e outros assistiram então a uma década de pujança e declínio, muito por força das convulsões político-militares que ditaram a independência da Namíbia, em 1990.

E a política fechou a mina
Os portugueses, esses, quase todos enveredaram pela vida dos negócios. António Manuel Rocha não fugiu à regra. Após o fecho da mina – “minada” pela saída de muitos quadros e pela onda grevista do pós-independência –, percebeu que a fronteira era, e é, um território de oportunidades. Por isso, escolheu as imediações do grande rio Okavango, o Cubango dos angolanos, que separa os dois países no extremo nordeste namibiano.

A cidade mais próxima, Rundu, ficava a 120 quilómetros. Na sua loja (winkel, em afrikander), que chamou de Shitemo Winkel, vendia um pouco de tudo, investido numa espécie de Oliveira de Figueira que nunca leu Hergé. Entre os muitos clientes havia quem pagasse e quem não tivesse como.

E havia, sobretudo, a UNITA – cuja implantação dos dois lados da fronteira era claramente maioritária, até que o governo de Windhoek resolveu apoiar oficialmente o MPLA. Está visto que, a partir daí, qualquer relação com os homens e as mulheres fiéis a Jonas Savimbi passou a ser fortemente desaconselhada. António Manuel sentiu isso mesmo, tal como sentiu o negócio a cair a pique, por falta de clientes.

Estava-se em 1995, ano–chave para o outrora jovem emigrante aventureiro e futuro empresário de sucesso. Para trás ficaram as terras inóspitas e belicosas do Okavango, trocadas pelo, apesar de tudo, mais tranquilo e próspero território do Ovamboland, em cuja capital, Oshakati, António Manuel já tinha constituído uma sociedade, com pessoas da zona da Figueira da Foz, para abrir uma butique de roupa e acessórios.

Desde então foi sempre a crescer. A exceção foi um negócio de armazém de mercadorias em Angola, perto do Lobito, “dinamitado” pela inflação galopante na transição do velho para o novo kuanza. De volta à fronteira sul, aproveitou da melhor forma o fim da guerra e o boom do comércio fronteiriço.

Mas, como conta em jeito de brincadeira, foi mesmo o crescente tráfego de pesados que lhe “mudou a agulha” para o rumo da restauração: “Havia muitos angolanos a guiar camiões, que traziam de tudo, de galinhas a cabritos, sempre prontos a puxar-me para a cozinha, onde preparava grandes panelões de caldeiradas de cabrito, macarrão com carne guisada, feijoadas e outras comidas de inspiração bem portuguesa e fartura qb para o apetite de um camionista”…

One Comment

  1. De súbito, los productores notaron que sería mucho

    más sencillo grabar con una sola cámara, sin público presente

    y, en su sitio, incluir las reacciones y las risas en postproducción, a través de una cinta grabada, tal como se había hecho antes en la radio.

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