Opinião – Vamos brincar aos ricos…

Posted by
Francisco Queirós

Francisco Queirós

Quantos pobres são precisos para se fazer um rico? “E eu pergunto aos economistas, aos políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”.

Garrett lançou a pergunta há mais de século e meio em “Viagens na Minha Terra”.

Não podia ter mais razão. Quanto custa um rico? Quanto nos custa um rico que foge aos impostos? Que coloca milhões escondidos nessas instituições bancárias que se prestam a acobertar crimes fiscais? Quantos desses milhões, encobertos em paraísos fiscais, são devidos ao Estado? Logo, devidos aos cidadãos. Quantos e quantos milhões estão entesourados em parte incerta?

Relevou-se agora publicamente o já designado “Swiss Leaks”. Mas quantas mais histórias existirão? A filial suíça da segunda maior instituição bancária do mundo, um dos tais “mercados”, o HSBC, acolheu durante anos quantias milionárias foragidas às autoridades fiscais.

As contas divulgadas em nome de cidadãos portugueses ascendem a um valor global de cerca de mil milhões de dólares. Três milionários desconhecidos, residentes em Vila Real, Castelo Branco e Santos-o-Velho, serão detentores de depósitos de 585 milhões de dólares. Entre os depositantes nacionais lá aparecem Américo Amorim e empresas do grupo Espírito Santo.

Um “incidente” inesperado terá posto a nu este paraíso fiscal. Mas quantos mais existirão? Onde pára o dinheiro dos multimilionários portugueses? – é uma pergunta legítima que paira sobre todos nós. E quanto desse dinheiro fugiu ao fisco?

Quanto desse dinheiro nos é devido? Que fortunas se protegem escondidas nos cofres dos paraísos fiscais? Afinal, que moralidade existe quando os “mercados” exigem e impõem miséria e pobreza aos povos, produzindo mais pobres, mas são cúmplices de crimes fiscais?

Não será nada fácil fazer-se o cálculo que consta da pergunta de Garrett. Qual o número de indivíduos que é preciso condenar à miséria, à infâmia, à desgraça e à penúria absoluta, para se alimentar um rico? Para se alimentar um “mercado”? Pergunte-se:

Qual é o teu valor de mercado, ó mercado?

Andámos todos a viver acima das nossas possibilidades, ou andamos, desde há muito, a sobreviver abaixo de níveis de decência e dignidade? Conformados à força. Aguenta, aguenta! Aguenta, uma ova!

Uns brincam aos ricos. Outros brincam com os pobres. Só estes não podem brincar! E se o povo também quiser brincar?

One Comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.