Opinião – Vamos brincar aos pobrezinhos…

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Francisco Queirós

Francisco Queirós

Um dia é a senhora de apelido estrangeiro. Agora, calhou a vez ao outro. Fome não há! Em Portugal, há comidinha para todos. Só passa fome quem quer. Afinal, apenas gente mal informada ou os envergonhados passam por essa pequena dificuldade de sentir o estômago colado às costas. Graças a Deus e ao ministro da lambreta que há para aí muitas cantinas solidárias, centros de distribuição de sopa para pobres.

Deixa-te lá dessa coisa do sonho de sair da pobreza. O sonho do emprego, do suficiente para comprar roupa e calçado, do mínimo para os livros escolares e educação dos filhos, para pagar as contas da água, da luz, do gás, da farmácia, dos transportes. E férias? Oh, férias! Tens todos os dias, seu desempregado crónico! Deixa-te disso! Um carapau fresco? Um bacalhauzito com grão? Um cozido? Ah, um cozidinho! Sonhos de rico!

Estás exausto de tanto lutar como guerrilheiro contra os dias cada vez mais compridos. Os meses enormes, sem fim. Esquece as contas do super! Lá estás tu com esse vício de viver acima das possibilidades. Deixa-te disso!

Fome não há! Uma sopinha na cantina não te falta! Põe-te na fila! Faz frio e chove? Paciência! Não se pode ter tudo! Põe-te na bicha, logo atrás do heroinómano que costuma arrumar carros na praça próxima. Uma vergonha pró turismo! E somos nós Património da Humanidade! Mais à frente, uma velhinha que há muito perdeu o tino e esbanja a pensão mais magra do que ela em copos de tinto. Ainda se queixa! O estupor que vive à custa dos subsídios e do enorme esforço dos empreendedores que aguentam caritativamente a vida destes párias!

Põe-te na bicha! Ah, sim, seguras a carteira com receio…Mas para quê? Não tem nada. Isso era dantes. Lá estás tu a recordar esses tempos de desperdício. Estás na bicha! Ao frio. No ar paira um odor estranho que te eriça o estômago vazio. Misturam-se odores. O cheiro dos corpos por lavar que contigo fazem fila deslizando em passos miúdos como as caixas de conserva na passadeira da fábrica antes de serem cheias de sardinha. Aguenta! Estás quase na sopa. Levas um encontrão. Não empurrem!

Logo à frente, o toxicodependente faz contas com outro arrumador. Não percebes se o deve e haver se reporta ao negócio de automóveis ou a acertos no comércio de compra e venda do produto. Está quase… A sopa. A sopa logo aí. Quase. Graças a Deus!
Enquanto aguardas, vais pensando na vida. Que bom que seria fechares os olhos e pensar em mulheres bonitas, nela!, na praia, no sol, em viagens, em miúdos a brincar, correndo atrás da bola como antes na tua rua, num pedaço de leitão! Esquisitices! Que raio! E até te pões a pensar em trabalho! Pensamentos acima das possibilidades!

Amanhã é domingo. Isso sim. Concentra-te! Não há sopa para ninguém! Comerás as duas salsichas que te restam da lata aberta na semana passada. Oxalá não estejam estragadas, guardadas assim em cima da banca, o frigorífico não funciona desde há três meses quando te cortaram a luz. Ainda haverá por lá um pouco de esparguete. Talvez. E será o gás suficiente? Se abanares bem a botija…

Não há fome em Portugal! Ouviste no pequeno transístor a pilhas que não usavas há muito. Pois é! Se não tivesses deixado cortar a electricidade, talvez visses o senhor na televisão a falar do assunto.

“O próximo!” A sopinha no prato! Quentinha! Como gostas! Podia ser mais grossinha! Mas maravilha! Tudo quanto um homem quer!

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