Opinião – Uma questão de esqueletos

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Aires Antunes Diniz

Aires Antunes Diniz

Todos falam do famoso preso44 de Évora e muitos vão por lá, tentando solidariamente adoçar-lhe a vida ou simplesmente tentar esconder mais um esqueleto num armário, uma tradução da expressão inglesa ” skeleton in the cupboard” e só para que ninguém o entreveja. É o que prevejo quando vejo alguns a dizer uns poemas a despropósito ou vociferam indignações sem fundamento, já que serão poucos os que vão a Évora e não têm esqueletos ou seja segredos para esconder.

Pelo contrário, com o nome Quarenta e Quatro apenas recordo o gentil burrito do meu tio Joaquim, que é agora um homem quase centenário, trabalhador e honrado. Por isso, só escondo algo por pudor e alguma reserva sobre amores e ódios quando transcrevo uma carta com umas reticências que introduzo: “Vi um artigo do (José Antunes) Serra publicado creio que nos últimos nos da publicação do Instituto de Antropologia de Coimbra sobre ossadas humanas de Évora (?) existentes em Coimbra, estudadas pelo Prof. Barros e Cunha, onde o Serra … dá uma tosa no Ataíde a propósito do estudo que este fez sobre um esqueleto da mesma proveniência” .

Não posso contudo esconder que há gente em Trás-os-Montes que agradece a Sócrates as estradas que os ligaram ao Porto e a Vila Real em menos minutos e horas. E eu andei por lá há dias e pude fazer uma viagem rápida da Guarda a Vila Real sem pagar portagens passando por Moncorvo, Vila Flor, Carrazeda de Anciães. Vou ainda vendo como até existe uma saída para Vilar de Maçada e outra para Sabrosa.

Infelizmente, por uma viagem rápida da Guarda a Castelo Branco paguei uma elevada quantia em portagens, uma invenção de Paulo Campos, um homem eleito como deputado pela Guarda que se esqueceu de olhar para este Interior. Foi até transformando as portagens em barreiras ao progresso ou pelo menos à manutenção de uma aceitável qualidade de vida no eixo Guarda-Castelo Branco e suas adjacências. Foi ele também que disse há tempos que o ordenado de deputado não lhe dava para alimentar os filhos, tendo o pai, António Campos que o ajudar. Fiquei por isso surpreendido quando este foi um dos indignados visitantes do preso 44.

Entretanto, no meu deambular pelo país, vejo cada vez mais restaurantes e cafés fechados, lojas e fábricas fechadas, casas à venda e gente que, como eu, está mais pobre e todos nós, estamos também, mais preocupados com filhos e netos.
Todos vamos tentando sobreviver e todos sabemos cada vez melhor a razão por que tal acontece. Vou sabendo ainda que alguns dos que não encontro nas ruas das nossas vilas e cidades tiveram de emigrar para sobreviver.
E indigno-me com tantos esqueletos no armário que alguns teimosamente teimam em esconder como se fossem inocentes.

1 Fundo Bibliográfico do Professor Santos Júnior, sito em Torre de Moncorvo, Pires Soares – Correspondência 1952-1953, Documento 81//440.

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