Valdemar Caldeira: Um sábio “mimado” que rejeita viver da reforma do Estado

Valdemar Caldeira tem 73 anos. Vive numa casa a precisar de obras junto à estrada da Cidreira. Foi, em tempos, filho de gente abastada e professor na universidade. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Valdemar Caldeira tem 73 anos. Vive numa casa a precisar de obras junto à estrada da Cidreira. Foi, em tempos, filho de gente abastada e professor na universidade. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

 

À hora marcada nem vivalma. Junto a um restaurante abandonado no Bolão, o silêncio é apenas interrompido pelo trepidar dos carros que circulam na Estrada da Cidreira.

O tempo passa e nada. Mas, à derradeira tentativa, alguém grita: “Faça o favor, minha senhora!”. À primeira vista não se percebe bem de onde surge aquela figura franzina. Sai de uma casa completamente tomada por heras – existe ali uma casa? – cabelo desgrenhado, ainda descalço, a ajeitar a gravata.

O homem sorri e pede desculpa pelo atraso. O bigode branco e farto, a tapar-lhe os lábios, não impede que as palavras lhe saiam em catadupa, num português escorreito e elaborado, como se estivesse a proferir uma palestra.

Valdemar Caldeira, antigo professor na Universidade de Coimbra, é um sábio que preferiu renunciar às reformas do Estado porque não consegue aceitar “a hipocrisia da persuasão, a lógica do impositivo e o uso do autoritarismo”. Vive, por isso, dos alugueres de propriedades deixadas pelos pais.

“Não vivo com especiais dificuldades. Pode ser que seja um bocado de orgulho, mas eu desperdiço oportunidades de rentabilização”, admite.

Este homem – não é raro vê-lo, em passo apressado, entre o Bolão e Coimbra – vive com o mínimo possível, sozinho, mas rejeita qualquer ajuda de terceiros. Ainda assim, quem o conhece diz que é um benemérito que sempre preferiu ajudar quem tinha menos do que ele. Exemplo disso são as explicações de matemática que deu a quem lhe pediu, sem cobrar nada. Mas sobre isso Valdemar Caldeira pouco ou nada diz.

Recorda, no entanto, os 25 anos em que foi voluntário no Serviço de Nefrologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra. “Ia lá duas vezes por semana. Deixei de ir há dois anos”.

Agora, os passos apressados que dá, levam-no em direção à Sé Nova, onde vai “com muita regularidade para assistir à missa”.

“Quando me formei, a oportunidade que tive de entrar na docência universitária foi à saída de uma missa por um homem que tinha sido meu professor de Física e que me tinha contemplado com uma nota de 15”, conta. “Agora, quando me veem na rua, ou vou à missa ou vou comprar pão e mercearia”, acrescenta.

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Professor na Universidade “mas sem vocação”

A conversa não é fácil. Valdemar Caldeira divaga, não responde às perguntas, evita falar de si. Tem 73 anos “feitos a 6 de setembro”. Foi filho único – condição que o marcou toda a vida – de um comerciante de gado e de uma doméstica, naturais da Carapinheira. Vieram para Coimbra quando Valdemar ainda era “infante”.

“Os meus pais compraram o talho dos Olivais como trespasse, assim como o meu avô tinha. Eu fui para a Escola Primária dos Olivais”.

O curso do liceu fê-lo no Colégio Luís de Camões. Desse tempo, não esquece o homem que o marcou “muito objetivamente, em termos de modelação, de reverência, um homem de auto domínio, contido, e que era um ídolo da rapaziada do colégio”. Alberto Luís Gomes, o futebolista referência da Académica dava aulas de português no colégio. “Entrei em 1952 e ele tinha sido uma das referências da equipa da Académica e tinha ganho a Taça de Portugal em 39”, recorda. Seria impossível esquecer: confessa ser “um doente” pela Briosa, evitando mesmo ir aos jogos com receio de sofrer uma “síncope cardíaca”.

 

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Licenciado em Engenharia Química Industrial

Em 1959, Valdemar Caldeira entrou na Faculdade de Ciências no curso de Engenharia Química Industrial. “Demorei cinco anos para fazer um plano de curso de três. Saí daqui em outubro de 64 e fui para a Faculdade de Engenharia do Porto, onde conclui o curso em três anos,” conta.

Recorda-se, a este propósito, da reação do pai quando, ao terminar o curso liceal, lhe deu conta que queria ir para o Instituto Superior de Agronomia. “A reação do meu pai só é expressa numa palavra rija do nosso vocabulário: tinir, amor detentor, de posse. Disse-me: “tu ainda és verde demais para ir já para Lisboa. Matriculas-te num curso de engenharia”. Foi o que fez. Mas nunca disse aos pais que se tinha matriculado num curso de Engenharia Química. Só o fez no dia em que precisou de licença da família para ser hospedado no Porto, onde iria frequentar o Instituto de Engenharia.

Terminou o curso, e ainda chegou a “estar lançado para ser assistente”. “Dei aulas teórico-práticas em 1969. Mas depois virei as costas àquilo, porque não era a minha inclinação e eu sabia”, constata.

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

“Assomo casamenteiro”

Viveu com os pais até aos 60 anos, enquanto ia dando explicações.  É a eles a quem a memória regressa vezes sem conta.

“Não casei. Era filho único. O meu pai foi um homem que me deu uma única palmada, mas a quem eu agradeço, porque não era preciso dizer-me mais nada. Eu sabia que a coisa estava perto de extravasar quando ele abria os olhos e nada me dizia além disto: “ouve lá: eu não sei se estás a ser “Val de mar” ou “Val de Terra”. Quando ele dizia isto eu pensava: daqui não ultrapassas, porque se ultrapassas, levas”, diz, os olhos azuis a sorrir.

E depois – continua – “fiquei quase sempre debaixo das saias da mamã”.

O pai faleceu em 95 e a mãe, três anos depois. Da relação entre os dois recorda as alturas em que, “de burro, andavam sem se falar 10, 12 dias”. Mas – nota – “mesmo tendo esses momentos em que andavam às avessas, penso que não havia dia nenhum que não dessem o “bom dia” um ao outro”.

Nunca casou. Não diz porquê, continua a fugir à pergunta. “O que se passa é que fui filho único. Temos as influências que temos. A pessoa que eu mais prezei a seguir à minha mãe foi a minha avó materna”. E prossegue: “eu tinha sensibilidade, era um menino único, mimado. E, essa é talvez uma das razões porque eu não terei tido o assomo casamenteiro: ter sido um menino apaparicado. Devo à minha avó materna momentos de intenso afeto e à minha mãe também – embora a minha mãe não se coibisse de, quando fosse preciso, dar-me umas palmadas”, relembra.

 

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Valdemar Caldeira. FOTO DB/CARLOS JORGE MONTEIRO

Despojado de bens

Usa fato e gravata todos dias: influência da família, com posses, e que sempre fez questão de zelar e cuidar do “menino Valdemar”. Mas deve-o, também, à “Senhora Dona Perpétua Monteiro”, costureira e “mulher de referência” que era a madrinha de batismo do pai.

A família está hoje tão presente como outrora. Se sobrevive, é graças à herança deixada pelos pais. É despojado de bens, vive numa casa pobre a necessitar de obras, mas continua a rejeitar ajuda de terceiros. É admirado por muitos e não saberá, sequer, que foi criada uma página no Facebook em sua homenagem.

Apesar de tudo, Valdemar Caldeira não será hoje tão apaparicado como foi enquanto os pais eram vivos. Mas é livre e os passos que dá quase todos dos dias entre Coimbra e a Cidreira, numa marcha sempre apressada, escondem demasiadas memórias. Memórias de um tempo menos solitário e tão povoado de afeto.

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