Opinião – A denúncia anónima

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Bruno Paixão

Bruno Paixão

Por muito que nos apeteça que Passos Coelho tenha mesmo prevaricado no caso Tecnoforma e que assim a máscara da seriedade se estilhace no chão mais fundo de uma qualquer ribalta política, há uma coisa que, embora menos sugestiva, devemos levar em conta quando analisamos a cobertura jornalística do caso.

Ao que se sabe, o caso Tecnoforma partiu de uma denúncia anónima, a que alguns órgãos de informação deram guarida, contrariamente ao que a deontologia lhes recomenda. Não se trata daquele tipo de informação em que é imprescindível o anonimato para proteger o denunciante, que se veria colocado em situação de fragilidade e perigo caso o seu nome se tornasse conhecido. Neste âmbito encontram-se, por exemplo, as denúncias sobre tráfico de droga.

Todavia, há outro tipo de anonimato que é, em princípio, inaceitável. Provém de gente que engendra vazar no colo das redações rumores sobre os poderosos, esperando que alguém aceite dar publicidade ao caso. Basta que um jornal pegue numa história para que os rivais sigam atrás e iniciem a novela. É o chamado efeito de mimetismo, que tão bem caracteriza o sistema mediático. Basta que o primeiro dê o passo em frente e publique a notícia para que os outros sigam no seu encalço. A partir daí, são as vendas e o voyeurismo público que mandam nas manchetes.

Ao dar voz a delatores anónimos, os media estão a pactuar com os tais que se alimentam do ar bafiento dos bastidores políticos e que procuram cobrir o rosto e as intenções, podendo dizer tudo o que quiserem, sem riscos, pois dificilmente se saberá de onde partiu o rumor. Agem na congeminação de um beco e ficam por ali a lançar lama, esperando que os jornalistas liguem a ventoinha mediática. Estas denúncias partem habitualmente de alguém que tem o objetivo de lucrar alguma coisa com isso. E deviam ser encaradas pelos jornalistas com a maior cautela possível, pois são apenas rumores. É que, na cabeça do público, “onde há fumo há fogo” e a palavra “suspeito”, no vocabulário popular, é sinónimo de “culpado”.

Uma parte dos escândalos que têm ocorrido na democracia portuguesa ao longo destes quarenta anos é baseada em denúncias infundadas. Os escândalos vendem e fazem subir audiências, ameaçam ruir reputações e conseguem fazer cair políticos. Cada vez mais, os delatores sabem como o fazer. Agem quase sempre com a ajuda de algumas instâncias judiciais e da quebra do segredo de justiça, que em vez de proteger os cidadãos, os lançam sem pudor na fogueira de uma inquisição sem regras.

O caso Tecnoforma, envolvendo o primeiro-ministro Passos Coelho, veio contribuir para o circo mediático, onde apenas variam protagonistas. A oposição espreme o caso até ao tutano e o partido do poder defende até ao limite das suas juras a inocência do líder, arremessando que este tem direito à presunção da inocência e que não pode ser condenado por populismos oportunistas e demagogias baratas. É pena que os mesmos que hoje defendem Passos não tivessem tido a prudência de o fazer quando o caso se chamava Freeport e o protagonista era José Sócrates. Pessoas com importantes responsabilidades no Estado agem com bipolaridade, sendo umas vezes bombeiras e outras incendiárias.

Sabendo disso, é incompreensível que continue a fazer-se jornalismo a partir de denúncias anónimas. Este caso já cumpriu a sua função principal: a de manchar a reputação de uma pessoa. Nesse capítulo, a verdade de pouco vale.

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