Braço sul do Mondego, o rio “desconhecido” que quase seca na maré baixa

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O braço sul do rio Mondego, junto à Figueira da Foz, enche na maré alta e quase seca na baixa-mar, afetando a qualidade da água que abastece pisciculturas e a produção de sal, alega quem ali investe.

O braço sul deixa o canal principal do Mondego na zona conhecida como Cinco Irmãos, a cerca de seis quilómetros a montante da Figueira da Foz, e corre entre a ilha da Morraceira e a margem esquerda do estuário. Regressa ao braço norte junto aos estaleiros e porto de pesca, em frente à cidade, relativamente perto do local onde até meados do século XIX se situava a barra do porto, quando o braço sul era também o canal principal do rio, situação que foi alterada com diversas obras de regularização e construção de molhes.

“A nossa exploração está a ser abastecida pelo braço sul e não há dúvida nenhuma de que entre o braço norte e o braço sul a diferença de qualidade [da água], até a própria imagem só à vista desarmada, é completamente abismal”, disse à agência Lusa Vítor Camarneiro, empresário de piscicultura.

Nos dias de hoje, só se consegue navegar no braço sul, a partir dos Cinco Irmãos, na maré alta. A primeira parte do percurso percorre uma zona pantanosa e curvilínea, desconhecida da maioria das pessoas, mas depois o canal alarga perto da foz do rio Pranto, afluente do Mondego, numa zona bordeada por explorações piscícolas e marinhas de sal, onde pontificam diversas espécies de aves como a garça-branca, corvos-marinhos – passíveis de serem observados entre setembro e abril – ou dezenas de flamingos, brancos e cor-de-rosa.

A altura da água no braço sul, a montante da Ponte dos Arcos [entre a margem esquerda e a ilha da Morraceira], está diretamente relacionada com a amplitude da maré, indica José Paixão, também empresário com investimentos na aquicultura.

“O rio precisa de uma intervenção rápida, precisa de uma dragagem desde os Cinco Irmãos até à área da Ponte dos Arcos. Está bastante assoreado”, frisou.

A intervenção, defendeu, passará a possibilitar que as marés façam a limpeza de “todos os sedimentos e toda a matéria orgânica que se deposita no fundo” para que quando a maré é mais alta os piscicultores não coloquem “água com menos qualidade” nos tanques de aquicultura.

O assoreamento do braço sul também preocupa os agricultores de arroz das proximidades, conscientes de que a sua atividade “depende do rio”: “É fundamental fazer aqui uma intervenção, o rio está a ficar completamente assoreado. Deixa de ter grandes circulações de água, fica mais contaminado, é fundamental haver uma drenagem para que o rio funcione a 100 por cento”, defendeu Jorge Jordão, da associação que gere a obra hidroagrícola do Mondego.

Para além do assoreamento e da drenagem de água doce que, na maré baixa, sai dos campos agrícolas para o rio, a questão da qualidade da água no braço sul “sofre” com a pressão dos efluentes oriundos de unidades industriais das proximidades, alegam os piscicultores.

No entanto, João Damasceno, administrador da empresa Águas da Figueira, sustenta que nos últimos anos “tem sido feito um esforço” para que as unidades industriais façam um pré-tratamento dos efluentes, cujo processo é depois concluído em duas estações de tratamento de águas e resíduos existentes na margem esquerda do Mondego.

“Temos dados concretos de que muito mais efluentes de que no passado iam para o rio sem qualquer tratamento. Hoje, estão a ser tratados”, garantiu.

Já Ana Carvalho, vereadora da autarquia da Figueira da Foz, destacou o “potencial imenso” ao nível económico da zona do estuário do Mondego, na produção do sal, aquicultura e bivalves “que não está, minimamente, a ser explorado como devia”.

“Essa falta de exploração deve-se à falta de investimento privado mas, essencialmente, a problemas do assoreamento e à falta de renovação da água”, admitiu.

A autarca alertou, no entanto, para a necessidade de eventuais obras no braço sul do Mondego terem de ser feitas “com muito cuidado, porque é um ecossistema muito sensível”.

“Nem sempre o que é importante para os piscicultores é importante para a própria natureza. Todo este equilíbrio tem de ser estudado, não podemos dizer que vamos desassorear e vamos aprofundar o canal, tem de haver um estudo aprofundado”, avisou, defendendo que terá de ser a Agência Portuguesa do Ambiente a liderar o processo.

2 Comments

  1. O estuario do Mondego, em particular o seu sector vestibular, pela sua importância ecológica merece ser ter um uso sustentável dos reus recursos. Assim, nas notícias sobre ele devem ser ouvidos os diversificados utilizadores dos seus recursos, mas também os técnicos com competencias para uma correcta Gestão deste Ambiente Natural, bem como os cientistas (biólogos, geólogos e geógrafos) que o conhecem como sistema sedimentar dinâmico. Investigadores da Universidade de Coimbra têm dedicado muitos dos seus estudos a este estuário e publicados os resultados em Revistas científicas e materiais de divulgação que merecem ser consultados. Listo abaixo algumas publicações de referencia que mostram que o actual conflito de interesses já há mais de uma década que foi identificado pelos cientistas.
    Um outro aspecto a acautelar é o de que um jornal ou agencia de informação, neste caso a Agencia Lusa, não poder publicar fotos sem identificar o respectivo autor. A foto acima apresentada foi tirada por mim e a Agencia Lusa não me solicitou autorização para a respectiva publicação (o seu a seu dono …)
    Pedro Proença Cunha – Professor Catedrático de Geologia Sedimentar da Universidade de Coimbra

    Cunha, P. P.; Freitas, H.; Marques, J. C.; Dinis, J. L. & Caetano, P. (1997) – A protecção e gestão de áreas estuarinas — importância da Ilha da Morraceira e do sub-sistema estuarino do Pranto (Estuário do Mondego, Portugal). In: “Colectânea de ideias sobre a zona costeira de Portugal”, 473-488.
    Dinis, J. & Cunha, P. P. (1998) – Impactes antrópicos no sistema sedimentar do Estuário do Mondego. Sociedade e Território, 27, 3-15.
    Dinis, J. & Cunha, P. P. (1999) – Sedimentologia e hidrodinâmica dos subsistemas estuarinos do Mondego (Portugal central). Recursos Hídricos, 20, 1, 37-49.
    Cunha, P. P. & Dinis, J. (2002) – Sedimentary dynamics of the Mondego estuary. In M. A. Pardal, J. C. Marques & M. A. S. Graça (editors), Aquatic ecology of the Mondego river basin. Global importance of local experience. Chapter 1.4, pp. 43-62, Imprensa da Universidade, Univ. Coimbra.

  2. João Rosa says:

    De facto, é necessário que o braço sul seja dragado, pois tenho uma grande propriedade junto desse braço, na Ilha da Morraceira, que iria beneficiar muito com isso, bem como, todas as outras, na mesma situação.

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