“As festas do concelho são um momento de afirmação daquilo que temos feito em Penela”

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A propósito das Festas de S. Miguel, FAGRIP e Feira das Nozes, até esta segunda-feira, 29 de setembro, o presidente da Câmara Municipal de Penela, Luís Matias, em entrevista ao DIÁRIO AS BEIRAS, faz o retrato de um concelho que aposta cada vez mais em áreas “diferenciadoras”.

As Festas de S. Miguel, a FAGRIP e a Feira das Nozes serão mais uma oportunidade para Penela afirmar as suas raízes, a sua identidade e a sua dinâmica?

Este ano, mais uma vez, congregamos nas festas do concelho quatro eventos: a ancestral Feira de S. Miguel, mais conhecida por Feira das Nozes – com toda a sua tradição e estabelecida agora como plataforma logística de comercialização a nível nacional no tempo de apanha deste produto –, a FAGRIP – Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Penela, um certame mais contemporâneo destinado a explorar e a dar a conhecer a vertente agrícola, comercial e industrial do concelho, complementado com o artesanato e os produtos locais. Depois há, naturalmente, toda a programação cultural e a animação, onde eu tenho de reconhecer que há um notório desinvestimento no cartaz.

Esse desinvestimento no cartaz é uma opção?

Nós optamos por diminuir aquilo que eram os custos com este género de programação, sobretudo na quantidade de artistas no cartaz. É uma tomada de posição consciente e é, de facto, uma questão de opção. Entendemos que, sendo necessário reduzir custos com os eventos, teria de ser na animação das festas. Isto sem prejuízo de, por exemplo, continuar a ter a Feira do Livro, que irá decorrer durante toda a semana, numa forma de promover a leitura e desenvolver a cultura. Privilegiamos então a Feira das Nozes, a FAGRIP, a Feira do Livro e a Feira dos Produtos Endógenos e das Tasquinhas.

E faz todo o sentido que assim seja porque este é também um momento de encontro das gentes de Penela, dos que estão e dos que chegam de fora?

É verdade. As festas concelhias, diria eu, têm sempre essa missão, a de juntar as pessoas. As festas são um ponto de encontro, com os de cá a darem a conhecer o que estão a fazer. Todos os visitantes e, em particular, os penelenses, têm neste espaço e nestes dias um forte elemento de sedimentação daquilo que é a sua sociabilidade, num momento de celebração da genuinidade das pessoas, do espírito penelense. E isso é essencial.

Depois há ainda o Dia do Concelho de Penela?

Exatamente. O dia em que nós devemos afirmar a nossa identidade, a nossa forma de ser, eu diria a alma de ser Penela. Os que nos visitam podem ficar a conhecer os nossos recursos naturais, culturais, aquilo que é o nosso empreendedorismo, o que as empresas e as associações têm feito. Este é também um tempo de afirmação daquilo que temos feito. Na FAGRIP vamos ter 47 expositores, todo o setor do comércio, empresarial, turístico, agrícola. Acrescem 23 artesãos e empreendedores ligados à área do artesanato e 38 expositores ligados aos produtos endógenos, ao mercado da agricultura familiar e tradicional, às cebolas e às nozes, dois dos produtos mais representativos e sazonais.

Muitas empresas, associações e expositores individuais nestas festas?

Muitas, mais de 100, o que nos apraz registar. Muitas do setor agroindustrial, outras mais ligadas ao artesanato e ao turismo. Assinala-se este fim de semana o Dia Internacional do Turismo e, por isso, procuramos também dar algum foco a este setor que, para nós, é estratégico. Por isso, vamos ter na tenda oficial, onde estará o expositor da Câmara Municipal de Penela, as redes de desenvolvimento turístico em que estamos integrados e também alguma visibilidade da oferta, com os hotéis, os restaurantes, numa proposta que se quer cada vez mais integrada em termos de produtos turísticos subregionais.

 Produtos turísticos que são cada vez mais fundamentais ao desenvolvimento de territórios como o de Penela?

Sem dúvida. E há uma séria necessidade de trabalhar cada vez mais estas redes, que precisam de ser consolidadas. Nós precisamos também de passar uma imagem conjunta daquilo que são os mais importantes recursos do nosso território.

 Estamos a falar de que redes?

Estamos a falar da Rede de Aldeias do Xisto – as aldeias serranas que conservaram aquela arquitetura vernacular, mas que, mais do que isso, pretendem fazer a afirmação da genuinidade de quem lá vive, das tradições, da etnografia, dos hábitos de vida –, da Agência para o Desenvolvimento dos Castelos e Muralhas do Mondego – que tem a ver com o património medieval, com a arquitetura medieval que nos foi deixada –, da Villa Sicó, com a valorização dos recursos da romanização, com toda a oferta que temos no concelho, distintiva e diferenciadora e que começa a fazer um caminho de afirmação, de que é exemplo o novo hotel Duecitânia. Mas há outras ofertas que enquadram a nossa qualidade de vida, como a amenidade, a segurança e a excelência ambiental.

 As ofertas turísticas são diversas e únicas?

Nós temos, de facto, algumas ofertas únicas, como o “homem verde”, na Serra da Lousã. O que é necessário é dar a conhecer nesta perspetiva integrada aquilo que se vai fazendo no território, desde o turismo em espaço rural ou de montanha, passando pelo tradicional hotel.

 É essa oferta que vai ser dada a conhecer na feira?

Procuramos ter esse espaço de divulgação das nossas diversas ofertas, associado à restauração, onde as empresas possam estar em contacto com as diversas redes, o que permitirá alavancar esta atividade.

 O turismo é uma área de desenvolvimento e negócio estruturante para o país e, particularmente, para regiões como esta?

O turismo tem-se afirmado ao nível nacional, sub-regional e regional. Nós, ao nível regional, ainda temos uma tarefa ingrata, mas que precisamos de levar a cabo, que é a de perceber em que produtos turísticos é que somos fortes. A região Centro tem uma dificuldade que resulta de ter muitos produtos turísticos, muitos deles muito interessantes, mas que não conseguem afirmar-se a uma escala nacional e internacional. Exemplo disso é o sol, o mar e o golfe. O problema da região Centro tem a ver com a sua diversidade, com a vastidão dos seus recursos turísticos, sobretudo quando tentam trabalhar-se todos.

 Defende, portanto, que se seja mais criterioso e se aposte nas áreas turísticas em que o Centro possa fazer a diferença?

Defendo que devemos ser assertivos, devemos eleger, trabalhar e consolidar o produto turístico em que somos mais distintivos e diferenciadores relativamente às restantes regiões do país e também à Europa.

 O que é que, no seu entender, é distintivo na região Centro?

O património cultural e histórico, conjugado com essa ligação forte ainda a uma ancestralidade real e uma grande genuinidade. Elementos que fundam cada uma das redes que nós integramos. A associar a isto, temos um conjunto de biótipos muito interessantes e que nos dão aquilo que é a excelência ambiental. E estou a falar especificamente das serras da Lousã, do Sicó, e, a uma escala de facto regional, também da Gardunha, do Açor e da Estrela. E este é o grande elemento diferenciador que temos na região Centro. Mas não basta ter a paisagem e a excelência ambiental. É preciso depois trabalhar os produtos que eles podem conferir em termos de turismo de natureza e turismo ativo, garantindo uma oferta que possa assegurar a vinda e a permanência das pessoas que nos visitam para além dos dois, três dias habituais, combatendo de facto a baixa permanência que continua a ser um dos problemas do turismo no Centro.

 Um exemplo, em Penela, de uma oferta turística realmente diferenciadora?

Um recurso que temos há milhares de anos, há muito mais que os castelos, que a Villa Romana do Rabaçal, que é o Centro de Interpretação do Sistema Espeleológico do Dueça, que começamos a trabalhar há dois meses. As pessoas podem visitar um centro espeleológico vivo, em formação, fazendo-o acautelando a sustentabilidade do sistema, assegurando que os nossos filhos e as futuras gerações possam ter essa mesma experiência, desconstruindo de alguma forma os modelos que temos de visita a grutas.

 Esta é uma proposta diferente e única para os amantes do turismo de natureza?

Sem dúvida. Nós podíamos ter algumas centenas de visitas por dia, mas não é o que queremos. Nós queremos ter uma dezena de visitantes por dia, mas oferecer-lhes uma experiência única. As pessoas hoje procuram experiências únicas, que lhes despertem sentimentos novos, que lhes permitam sonhar. E nós temos de ser muito assertivos nas escolhas e nas apostas que fazemos.

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