Cruz de D. Sancho está de regresso a Coimbra

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 CRUZ DE D. SANCHO MACHADO DE CASTRO LC

A Cruz de D. Sancho, um dos tesouros nacionais que há muito saiu de Coimbra, está de volta à cidade até 7 de setembro, em exposição no Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC), naquela que é a primeira iniciativa integrada no ciclo “Tesouros Partilhados”, neste caso especial com o Museu Nacional de Arte Antiga.

“Este era um pouco um compromisso que nós tínhamos com a comunidade”, diz a diretora do MNMC, adiantando que “várias pessoas já tinham falado na Cruz de D. Sancho, sobretudo porque há uma certa mágoa na cidade por a peça não estar em Coimbra”, o que resulta de “um percurso histórico que há que respeitar”.

E os museus, diz Ana Alcoforado, “têm cada vez mais a consciência desse percurso histórico”, pelo que têm feito um caminho, que é o mais “correto”, de uma grande abertura: o de por algumas peças a circular, devolvê-las por um período de tempo aos locais originais, deixar que as pessoas as conheçam, que fruam delas, que as admirem.

Ora é este espírito base de “partilha” que está na base desta nova rúbrica do MNMC. Com os “tesouros partilhados” pretende-se “pegar em peças muito importantes, que qualquer museu, em qualquer parte do mundo gostaria de ter em exposição, e dá-las a conhecer”, diz Ana Alcoforado. E o facto é que muitas destas peças – nomeadamente esta primeira – são muito importantes para a história da cidade, têm uma relação muito próxima com o espólio do museu e pretende-se colocá-las “em contraponto”.

No fundo, explica a diretora do MNMC, a intenção “é fazer algumas leituras diferentes e trazer a Coimbra, através do seu grande museu nacional, peças absolutamente fundamentais”. E a abertura do ciclo aconteceu com o Museu Nacional de Arte Antiga – dirigido por “um homem de Coimbra, que tem o Museu Machado de Castro no coração”, António Filipe Pimentel –, mas irá prosseguir, numa periodicidade anual, com outros museus do país.

A Cruz de D. Sancho é a peça emblemática da “abertura”, mas há outras também muito importantes para a história da cidade. E Ana Alcoforado lembra, por exemplo, os Manuscritos de Santa Cruz, que se encontram no Porto, algumas obras de Machado de Castro, “que a cidade não conhece e que é importante que conheça”. Estas são peças “a que se perde um pouco o rasto”, mas que “é importante dizer onde estão, que estão a ser cuidadas noutro museu e que é possível trazê-las para que sejam vistas e apreciadas em Coimbra”.

E é exatamente isso o que se pretende com a rúbrica, que agora abriu da melhor forma com este “tesouro”. Esta é “a peça” que tinha de abrir os “tesouros partilhados”, pela qual foi necessário esperar, acertando uma data útil para as duas instituições. Até que chegou esta que se entendeu “ser uma boa altura”, também porque a inauguração da exposição aconteceu nas Festas da Cidade.

Durante o mês de agosto, todas as semanas – quintas-feiras, às 18H15 –, o museu promove visitas guiadas à Cruz de D. Sancho. Em setembro, no encerramento, irá acontecer ainda uma “visita especial”. Para Ana Alcoforado, “esta é uma oportunidade de dar a conhecer à cidade alguns objetos fundamentais para a sua história, nomeadamente este que se prende com a nacionalidade e nos transporta para um tempo em que Coimbra foi capital do reino”.

Depois, este é, verdadeiramente, um “momento simbólico” para mostrar a Cruz de D. Sancho em Coimbra: completam-se 800 anos sobre a data em que a peça foi produzida, em 1214 [como confirma uma inscrição já com o calendário gregoriano]. A inscrição da data de produção na própria peça é, ela também, “uma coisa raríssima”. Particularidade que transforma a peça, “para além da sua qualidade artística e estética”, num “verdadeiro documento”.

D. Sancho I deixou um conjunto de peças em legado ao Mosteiro de Santa Cruz – onde seu pai [D. Afonso Henriques] se tinha feito sepultar e onde ele próprio ficou também sepultado – para serem fundidas e darem forma à cruz.

Também porque o MNMC tem uma importante coleção de ourivesaria – sobretudo da época medieval –, “é importante mostrar esta peça, falar dela, dá-la a conhecer e fazer a ligação a Santa Cruz e à sua condição de Panteão Nacional [por se encontrarem lá sepultados os dois primeiros reis de Portugal]”.

Isto, para Ana Alcoforado, “reforça a importância histórica desta cidade e deste museu”. Esse é também o objetivo da iniciativa, uma vez que o MNMC tem mais de uma centena de peças [120] classificadas, que pertencem ao “tesouro nacional” e que é importante mostrar também noutros museus.

Aliás, destaca a responsável, neste momento há um conjunto de peças do Machado de Castro em Turim, Itália, na exposição “Arquitetura Imaginária”, organizada pelo Museu Nacional de Arte Antiga, algumas classificadas, entre elas a Custódia de D. Jorge de Almeida, a peça de destaque na mostra, porque é a imagem “escolhida” para todos os materiais de divulgação.

O facto é que, para Ana Alcoforado, “há consciência de que, pela sua riqueza, qualquer grande museu do mundo gostaria de ter ou de mostrar” o espólio do MNMC. Esta presença internacional é também uma forma de “afirmar” a importância do seu espólio. Por estes dias, quem conhece o MNMC tem um motivo acrescido para voltar, quem não conhece tem o pretexto ideal para visitar aquele que é um dos grandes museus nacionais.

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