Opinião – Mudança radical

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Norberto Pires

Norberto Pires

O sistema político atual, baseado em partidos esgotados, anacrónicos, com regras que promovem a mediocridade e a obediência acéfala e cega, vive para eleições e para servir clientelas e interesses obscuros que nada têm a ver com a vida dos cidadãos: aqueles que votam, ou melhor, aqueles que já nem isso fazem.

Olhem para os resultados das várias eleições e observem o padrão de comportamento. Quem ganha não rege a sua ação como eleitos pelo seu programa eleitoral que, numa democracia séria, deveria ser aquilo que legitima o seu poder.

Os que têm boas votações anunciam logo outras metas, como se o compromisso eleitoral de nada valesse e, na verdade, as eleições fossem mais um degrau numa caminhada marcada por objetivos pessoais e de certos grupos de pressão. Os que perdem lamentam-se de tudo, dissolvem-se para continuar a luta (LOL) ou esgrimem razões que passam sempre pelos outros e nunca por si próprios.

A nenhum deles incomoda a simples realidade: todos, os que venceram, os que tiveram boas votações e os que perderam, foram o resultado da votação de uma minoria de votantes, infelizmente cada vez mais minoritária.

Nas Europeias de 2014, por exemplo, por cada 100 eleitores, abstiveram-se 66, votaram em branco ou nulo 4 e só 30 fizeram escolhas de entre as várias listas concorrentes. Ou seja, votaram no partido mais votado (o PS) cerca de 9 pessoas em cada 100. E com isso venceram, dizem eles, com 31,7% dos votos (cerca de 1 milhão de votos), elegendo 8 deputados europeus, mas esquecendo-se que não foram a escolha de 91 eleitores em cada 100. Idêntica análise poderia ser feita para todos os outros partidos e coligações, sendo o cenário ainda mais negro dado que tiveram ainda piores votações. Para mim fica sempre a pergunta: Que legitimidade têm os eleitos que são o resultado da escolha de tão poucos eleitores? Isso não os incomoda? Aparentemente não incomoda dada a tranquilidade com que seguiram em frente, depois de palavras e lamentos de circunstância.
Olho para o lado e vejo um título que diz que um grande grupo de comunicação social nacional despediu 160 profissionais, dos quais 65 eram jornalistas. Ao telefone percebo que atingiram tudo e todos, e despediram a competência e aqueles que estavam na casa há muito tempo. Um deles, amigo, mas um jornalista de grande fôlego dizia-me desalentado: “nem sei, depois de 22 anos na casa ainda nem realizei o que me aconteceu, estou ainda à procura do chão”.

Pessoalmente revolto-me contra a frieza dos números. Não foram 160. Foram homens e mulheres com história, com vida, com família, que se chamam Francisco, António, Miguel, Ana, …, e Emília, a quem retiraram o chão em nome de uma dívida que não construíram, de um país devassado pela incompetência, má-gestão, corrupção, mediocridade e amiguismo, que só poderia ter este resultado. Não responderei por mim da próxima vez que alguém me vier falar de números, esquecendo as pessoas por detrás e os respetivos dramas. É essa sacanice de falar por números em vez de dizer os nomes e identificar as pessoas, e as suas famílias, que permite que continuemos a aceitar esta situação que é, de facto, de emergência social.
Mais tarde coloco-me a pensar na racionalidade destas decisões. Sendo o jornalismo competente, sério e independente fundamental para o escrutínio público de políticos e decisores públicos, e que isso é essencial à liberdade e à democracia, qual é a lógica de colocar na rua jornalistas experientes, e provavelmente mais bem pagos, para dar lugar aos menos experientes e com vínculos precários? Ok, é uma pergunta de retórica. Fica a angustia pela liberdade e pela democracia. E as dúvidas sobre as razões de tudo isto.
E vêm-me à cabeça palavras firmes e frontais de Rui Rio: “Na origem do endividamento público gigantesco estão opções políticas em que o ministro, o primeiro-ministro ou presidente de câmara gastou dinheiro dos impostos das pessoas no seu benefício político direto, ou seja, para ganhar as próximas eleições. A crise do país é política e resultou de opções políticas completamente erradas, para não dizer nada sérias e nada honestas. Tudo isto tem origem na política e na falta de seriedade dos políticos”.
Nem mais, mas para quando a responsabilidade e a responsabilização?

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