Diário do presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho

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Foto Carlos Jorge Monteiro

Foto Carlos Jorge Monteiro

No reino do sossego, o castelo impõe-se à paisagem da vila histórica e agrícola, onde o verde se destaca neste território bucólico banhado pelo Mondego. Nesta manhã fria, com o termómetro a marcar sete graus, o silêncio deixa de se ouvir quando os viajantes progridem na EN111.

À beira-rio, adivinham-se os pregões e as preces por dias melhores dos vendedores e compradores que se concentram na feira quinzenal.

Na câmara, fazem-se contas de outro rosário. Emílio Torrão, ainda animado pelo calor da vitória eleitoral de 29 de setembro, não acusa a temperatura do ar que se respira no exterior do edifício dos paços do concelho de Montemor-o-Velho, construído pela monarquia e situado para praça da República, mas denuncia o desassossego da gestão autárquica que iniciou há cerca de dois meses.

Na rua, os corpos protegem-se do frio mergulhando no agasalho da roupa. A meio da manhã, dois velhos e um mais novo sentam-se num banco da praça da câmara, iludidos pelo sol que rasga o céu azul com gume de gelo. No interior do edifício, Emílio Torrão já vai na terceira reunião do dia. A agenda não dá descanso ao presidente. E o calor da vitória que ainda se respira entre as paredes frias do imóvel centenário vai sendo suplantado pela frieza dos números.Multiplicam-se os problemas detetados, somam-se as tentativas para os resolver, dividem-se as tarefas pela equipa liderada por Emílio Torrão e subtraem-se as conclusões: “aqui, nada funciona”, queixa-se o presidente. Era mais fácil ser líder da oposição?, perguntámos-lhe, no intervalo das reuniões. A resposta é evasiva e (politicamente) cautelosa: “acho que era preciso um presidente à séria, com sentido de responsabilidade. Isto ia estoirar, mais dia, menos dia”.

Orçamento antecipado

Emílio Torrão afiança que “o orçamento da câmara do próximo ano já está feito”. O trabalho de casa não se deve, no entanto, à força de vontade e à vontade da força que o edil emprega no exercício das suas funções. O orçamento já está feito, explica, porque os compromissos financeiros que a autarquia tem de cumprir praticamente não deixam margem para outras rubricas. “Em 2014, vamos assistir ao ano de todos os perigos”, alerta o autarca de Montemor-o-Velho.

O castelo de Montemor-o-Velho é uma testemunha silenciosa do dia a dia da vila medieval. A seus pés, o casco histórico, os verdes e húmidos campos. Expandindo o olhar, avistam-se outros montes, outras serras, outros vales, deste e de outros concelhos.

Esta é a terra de Fernão Mendes Pinto, que a história mais recente está a confirmar que os relatos de “A peregrinação” não resultaram da liberdade poética e ficcional do autor e que, afinal, o epíteto Fernão Mendes “Minto” era injusto. Emílio Torrão afiança que não está a hiperbolizar quando insiste que “ a situação financeira da autarquia é muito grave”.

Esta é também a terra de Afonso Duarte, o poeta de Ereira, freguesia ribeirinha de Montemor-o-Velho. Nas reuniões presididas por Emílio Torrão, porém, a prosa tem um acentuado défice de lirismo, rimando, invariavelmente, com a factualidade dos números e a procura incessante de encontrar soluções para os problemas que vão surgindo.

Falta de dinheiro

As reuniões deste dia de trabalho revelaram alguns dos problemas que Emílio Torrão e a sua equipa terão de resolver. E a conclusão é sempre a mesma: “não há dinheiro”. Os semáforos do movimentado e perigoso cruzamento de Quinhentos não funcionam há várias semanas e os serviços da câmara ainda não deram luz verde à reparação.

O aparelho de ar condicionado do gabinete informático está avariado há várias semanas e os serviços da câmara ainda não o mandaram reparar. Por seu lado, o edifício da câmara está a precisar de obras, em várias divisões, mas não há dinheiro e são os próprios funcionários que deitam mãos à obra.

Devido ao estado do parque de máquinas da autarquia, afiança o executivo socialista, o estaleiro está transformado numa “sucata”. Por outro lado, os quadros elétricos das estações elevatórias de água do concelho estão a necessitar de ser reparados ou substituídos. E o Balcão Único que o executivo vai criar no rés do chão da câmara não avança ao ritmo desejado. “Em algumas situações”, afiança o autarca, “estamos a falar de pequenos valores, mas tornam-se relevantes perante a situação financeira da autarquia”.

De manhã à noite

Esta é a terra onde também se escreveram capítulos do romance protagonizado por Pedro e Inês. Mas é de outras histórias, que exigem paixão à causa da gestão de coisa pública mas dispensam o drama, que Montemor-o-Velho está a escrever a sua história, tendo, desde setembro, Emílio Torrão como protagonista. Quem o conhece, afirma que ele é uma pessoa calma. Contudo, com “tantos problemas”, por um lado, e devido à camisa de força burocrática (interna e externa) que lhe limita a ação, por outro lado, o autarca pode estar à beira de um ataque de nervos. Porém, o edil respira fundo, traça um sorriso nos lábios e desenha a bonança no meio da tempestade.

À semelhança dos seus homólogos do país, o presidente da Câmara de Montemor-o-Velho não tem dias iguais. Porém, paradoxalmente, a rotina instala-se. A rotina de Emílio Torrão é a de chegar ao seu gabinete às 08H30 e sair às 22H00, “muitos dias sem tempo para almoçar”. É só enquanto está a “arrumar a casa”. Depois, quando a casa estiver arrumada, o advogado que ganhou a causa maior da sua carreira política – a presidência da autarquia -, chegará à conclusão que numa autarquia nunca está tudo “arrumado”. Além de governar o município, saliente-se, o edil lidera a Concelhia do PS.

Gestão local para o CAR

Para dar lugar à pista de triatlo do Centro de Alto Rendimento (CAR), a feira quinzenal de Montemor-o-Velho foi deslocalizada para a beira-rio. No dia da tomada de posse, o novo presidente da câmara prometeu fazê-la regressar ao local de origem. Mas o processo não está a ser tão simples como pensava e, por razões urbanísticas que se prendem com a organização do espaço de venda, a medida só deverá ser aplicada no primeiro trimestre de 2014.

“É um compromisso que vai ser cumprido”, garante Emílio Torrão. Entretanto, o executivo camarário está a equacionar a alteração do dia da feira, que se realiza à quarta. A pista de triatlo, afiança ainda o presidente da câmara, “também é para concluir, depois de superadas “algumas questões legais e técnicas”. Esta pista de atletismo leva-nos até ao CAR, onde os novos inquilinos dos paços do concelho encontraram “vários problemas”. A propósito, na reunião com Carlos Marta, presidente da Fundação para o Desporto, Emílio Torrão enfatizou: “ficámos assustados com o que vimos”.

Para identificar os problemas e apontar soluções, Emílio Torrão criou uma comissão técnica. Na visita que se seguiu ao centro de alta competição, Carlos Marta, o presidente da câmara e os restantes visitantes deparam-se com diversas pechas de ordem funcional. Em declarações ao DIÁRIO AS BEIRAS, o autor do projeto, Miguel Figueira, lembra os prémios que o imóvel lhe valeu, esclarecendo que “é um edifício dinâmico” e como tal pode ser utilizado segundo o “conceito de flexibilidade de utilização”.

Contudo, o maior problema do CAR são os custos de manutenção, de 300 mil euros por ano, totalmente suportados pela autarquia montemorense. A Fundação para o Desporto poderá ajudar a curar esta dor de cabeça que aflige o executivo camarário. A fundação tem a seu cargo a responsabilidade de articular os 14 centros de alta competição existentes no país e garantir a sua sustentabilidade através da internacionalização.

Carlos Marta deslocou-se a Montemor-o-Velho para dar conta da criação da Comissão Local de Gestão dos CAR, propondo que esta seja liderada pela autarquia, em parceria com as federações, clubes e associações que utilizam o equipamento. Emílio Torrão concordou, garantindo que vai tratar do assunto em tempo útil.

Um comunista pragmático

O PS conquistou a Câmara de Montemor-o-Velho ao PSD, em setembro último. Luís Leal, que não pôde recandidatar-se à edilidade por força da lei de limitação de mandatos, governou o concelho durante 12 anos, mas candidatou-se à assembleia municipal, tendo perdido para o socialista Fernando Ramos.

Para a câmara, os sociais-democratas candidataram Abel Girão e os socialistas avançaram com Emílio Torrão, líder da Concelhia do partido, pela segunda vez consecutiva. Desta feita, o candidato do PS ganhou, sem maioria absoluta, situação que se repetiu na assembleia municipal.

Jorge Camarneiro, candidato da CDU, viabilizou a estabilidade do executivo, ao integrar o executivo camarário no âmbito de um “acordo de entendimento”. Não é uma coligação pós-eleitoral, faz questão de ressalvar. Este economista e empresário explica que aceitou juntar-se ao executivo socialista “dado o estado em que o concelho se encontra”. O vereador comunista salvaguarda, no entanto, que não abdica das causas e das soluções que vem preconizando para Montemor-o-Velho.

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