Opinião – O governo do Ultimato

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FRANCISCO QUEIROSFrancisco Queirós

Nas ruas há gente. Gente que corre para o trabalho. Antes, levantar cedo. Arranjar-se rapidamente. Apressar os filhos. Largá-los na escola. Apanhar o autocarro. Correr mais um pouco e Ufa! Nas ruas há gente que lentamente faz e desfaz contas à vida, entre o banco do jardim, uns dedos de conversa e umas voltinhas mais longas que a reforma que diminui na proporção inversa e antinatural do passar dos tempos. Nas ruas há gente que corre sem tino, mesmo que esteja parada a repensar no emprego que não tem, numa culpa feroz que queima, do género “mas que raio de homem sou eu que nem emprego consigo ter”. E nas ruas há gente de mala aviada para apanhar o avião que se não parte mais logo partirá amanhã. “Somos tantos os galegos ressuscitados do poema da Rosalia de Castro, “Este parte, aquele parte/ E todos, todos se vão/ Galiza ficas sem homens/que possam cortar teu pão”. E a Galiza é aqui no Rossio, nos Aliados e na Praça da República, no Minho ou no Alentejo. Mulheres e homens, jovens e jovens são expulsos da terra onde nasceram.

E nas ruas ecoam lágrimas de desespero, ais cansados e gritos que crescem, multiplicando-se em número inchados de raiva e de indignação. No dia 26, muitos e muitos homens e mulheres protestaram por esse país fora. Dias antes milhares de polícias disseram ao povo que aqueles que são mandados a ser a mão forte dos poderosos são também povo indignado. A fome alastra como as águas do mar de um tsunami.

“O governo é o órgão de condução da política geral do país e o órgão superior da administração pública”, legislaram os constituintes. E milhões de portugueses sentem-se invadidos por potências estrangeiras, uma troika da grande banca que os governa. Onde está o governo de Portugal? – interrogam-se nas ruas os que partem, os que ficam e os que ficando empobrecem e sofrem. Os que sofrem e sofrendo se resignam e os que se não resignam e lutam.

Este é já um governo ilegítimo. Não serve o povo e a Pátria. Serve outros interesses. “Heróis do mar, /Nação valente, imortal/Levantei hoje de novo/ O esplendor de Portugal!”, cantava o povo indignado com o Ultimato Inglês no final do século XIX. Canção patriótica e anti-imperialista, contra a Inglaterra da Rainha Vitória, senhora do mundo de então, que rapidamente se converteu no hino dos republicanos. “Às armas, às armas! / Sobre a terra, sobre o mar, / Às armas, às armas! Pela Pátria lutar!” e cantava-se então: “ Contra os Bretões/ Marchar, marchar!”. O pacto que nos subjuga é um ultimato à soberania e independência nacional. O actual governo é, cada vez mais, um governo de ultimato.

No meu país sitiado há fome. Assaltam-se os pobres. Os pobres que não têm trabalho. Os pobres que trabalharam toda a vida e os pobres que trabalham e ainda assim são cada vez mais pobres. No meu país sitiado, um governo imoral e ilegítimo serve os interesses dos “bretões” e dos banqueiros do mundo. A soberania do povo subjugado é oferecida de bandeja. Nas ruas cresce a indignação e a raiva. Basta!

Contra os bretões do mundo – marchar, marchar!

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