Opinião – E as empresas?

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LUIS PARREIRÃOLuís Parreirão

O espaço público e o espaço mediático têm sido dominados por infindáveis e inconclusivas discussões sobre a dívida pública, o déficit público, o PIB e, até, sobre a Reforma do Estado.

É compreensível. Mas não chega!

O Parlamento discute o Orçamento de Estado para 2014, o Governo apresenta o “Guião para a Reforma do Estado” e os portugueses andam mergulhados num estado de incerteza que tudo obnubila e distorce.

Acontece que, entre discussões inconclusivas e documentos oficiais, parece faltar o espaço do real e, no caso, o das empresas.

Há alguns indicadores que, sem ser maçador, importará ter presente.

Vejamos,

•Total da dívida do sector público não financeiro – 254.638 milhões de Euros

•Total da dívida dos particulares – 160.783 milhões de Euros

•Total da dívida das Empresas privadas não financeiras 304.653 milhões de Euros

•Os rendimentos das empresas nacionais caíram 72 mil milhões de euros de 2010 para 2012

•Os lucros das empresas não financeiras em Portugal caíram de 41 mil milhões de euros em 2010 para 1.2 mil milhões em 2012

•A rentabilidade das empresas não financeiras caiu de 8,1% em 2006 para 4,1% em 2012

Parece claro que as nossas empresas têm um endividamento que dificilmente conseguirão remunerar, uma estrutura de capitais próprios que inviabiliza quer o investimento quer a contratação de mais dívida, têm rentabilidades em queda e lucros que caminham para a inexistência ou, pior, para os prejuízos. Acresce que todos estes indicadores são especialmente preocupantes, para não dizer dramaticamente piores, se olharmos especificamente para o relevante universo das PMEs.

Agora que estamos a poucos meses do final da primeira intervenção externa, talvez seja proveitosos começar a olhar para as empresas. De facto, ou crescemos com elas e com o seu crescimento, ou não cresceremos. Um Estado com finanças públicas equilibradas e sem economia nem empresas será, num curto lapso de tempo, um Estado com finanças públicas desequilibradas.

Mas, empresas fortes implicam acabar com a tradicional fragilidade financeira das empresas portuguesas, desiderato só alcançável com o aumento do seu capital, ainda que com a consequente perda, ou partilha, de poder por parte de alguns empresários.

Talvez seja preferível, a bem da nossa sustentabilidade como país soberano, encontrar espaço para tratar de algumas questões de longo prazo.

Não seria possível conceber e consensualizar um programa de longo prazo que criasse condições para a fusão de PMEs com a correspondente reformulação das estruturas de capitais, nomeadamente através da sua capitalização e da diminuição da dívida. Mas também tendo presente que a rentabilidade das grandes empresas é mais de duas vezes superior à das pequenas e médias empresas.

Será que a conversão, ao menos parcial, das actuais dívidas de curto prazo das empresas, em dívidas de médio/longo prazo, não será possível?

Criar à poupança portuguesa condições de garantia de capital e de desinvestimento não poderia ajudar a capitalizar as empresas portuguesas, por portugueses, nomeadamente as que não podem aceder ao mercado de capitais?

Certamente que muitos mais, e melhores, desafios se poderão encontrar. O que não podemos aceitar é o pensamento de que só no Estado existem problemas estruturais. Há muitos nas empresas que, ou se resolvem, ou asfixiam o Estado. E, para muitos deles, só o Estado pode criar condições para resolver – com conhecimento da realidade, com imaginação, com sobriedade e compromissos de longo prazo.

 

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