Ecoar Portugal ( 4 )

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NORBERTO CANHANorberto Canha

Neste momento difícil em que o nosso país – que vai da aldeia à cidade – se encontra, vem-me à memória muito do que aprendi com o meu pai. Se a definição de inteligente se aceita, uma capacidade de nos anteciparmos ao futuro, ele era, sem dúvida, inteligente.

Foi-se vender um rebanho de ovelhas à feira de Chacim. Era longe porque nós vivíamos nos vales da Vilariça, tínhamos que passar por Vila Nova e Sueima, viajar de noite, ele como pastor, eu zagalo. Teria aí sete anos. Ao amanhecer seria verão, mal se via o despertar do dia, já não muito longe de Chacim, deixamo-las fartar num lameiro. Não gostei, adverti. “Deixa lá filho é só hoje, para terem bom aspeto”. Vigiei mas calei-me. Chegadas à feira apareceu logo um comprador. Um aperto de mão, negócio fechado. Comprador e vendedor vão festejar para a taberna, não havia cafés.

Aparece um novo comprador que ofereceu mais. Entretanto, o meu pai chega e transmite-lhe a oferta. Meu pai: “era melhor negócio mas eu já dei a minha palavra, era desonra não respeita-la”. E hoje? É desonra não aproveitar as oportunidades.

Em Angola, já em Cassongue, andaria na segunda classe, a minha mãe era professora primária, o meu pai comerciante. Creio que a outra garotada iria à gaveta dos pais tirar uns tostões para comprar umas guloseimas. Meu pai terá verificado isso. Um dia apalpa-me os bolsos, não estivesse eu também a prevaricar. Volto-me para ele, a enfrentá-lo e digo: “se voltar a fazer isso saio de casa e nunca mais volto”. Meu pai disse: “quanto precisares do dinheiro vai à gaveta e tira-o”. Andei sempre sem dinheiro! Seja uma lição para pais e filhos. Seja uma lição para todos!

Meu pai era um homem muito perspicaz. Creio que comprava e vendia mais do que todos os comerciantes de Cassongue. Quando o negócio ia fraquejando mandava um emissário a percorrer os quimbos (não seria lá muito legal) a anunciar tingo, ou seja, as promoções atuais para a compra de produtos da terra, desde feijão, batata, milho ou venda de mercadorias a mais baixo preço. Resultava sempre, por isso hoje defino tingo como a arte de vender a quem não quer comprar, e comprar a quem não quer vender.

Chegava a comprar por campanha entre 5 a 10 mil sacos com 90 kl de feijão e/ou milho. Não havia dinheiro para pagar tudo o que comprava; mangas (fazendas) havia sempre. Como o sistema bancário funcionava por letras que tinham que se pagar invariavelmente no dia do vencimento ou reformá-las, ao não fazê-lo faziam-se em descrédito. Fugia-se desse sistema como o diabo já não foge hoje da cruz. Faltavam os angulares mas passava-se como moeda um papel de dívida. Logo que pagavam os produtos exportados não se ficava a dever um tostão a ninguém. Esse papel de dívida merecia o mesmo crédito que as notas (angulares) do Banco de Angola.

A honra tinha a mesma credibilidade que as notas do banco. O meu pai também fiava os compradores e comportava-se com a mesma honra que o vendedor.

Ilações a tirar dos ensinamentos colhidos pelo meu pai para encontrarmos o caminho para o nosso futuro:

– Venda do gado – honrar a palavra e não as conveniências;

– Com descendência e tolerância para um pequeno deslize (fartar-se num lameiro) e não transigente para os parentes ideológicos ou de conveniência, pois tira-se toda a iniciativa e criatividade e quer-se arrojo e empreendedorismo;

– Confiança – revistar os bolsos tem que se restaurar a confiança se não há saída e só descrença

– Produtividade – (milho e feijão) que sejam em bens alimentares, industriais, particularmente energia eletromagnética e utilização). Na construção, barómetro do bem estar de um país (como a alguém ouvi restaurando os imóveis degradados espalhados por todo o país).

– No ensino, investigação e pensamento – para atingir o patamar que merecemos e somos capazes de alcançar

– Dinheiro – o equivalente ao vale do meu pai, regresso ao escudo mantendo o euro para o exterior

– Tingo – que a imprensa apregoe os nossos merecimentos e não seja arauta daquilo que nos mina a confiança e denegride a imagem.

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