Opinião – Requiem por um homem bom – Mário Nunes

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OLINDA RIOOlinda Martinho Rio

Abstenho-me aqui de mencionar a imensa obra do Dr. Mário Nunes, resultante da sua intervenção nos espaços político, social, cultural e comunicativo, dada a exiguidade do espaço e o facto de esta estar retratada em inúmeras fontes. Proponho-me apenas falar do ser humano e do raro exemplo de empenhamento cívico, dedicação à causa pública, humildade, nobreza de espírito, generosidade e pragmatismo.

O Dr. Mário Nunes não se sentou na” torre de marfim” criticando a cultura popular e o seu tempo. Agiu. Assumiu um compromisso com a realidade do momento. Na revalorização, restauração e conservação do património material e imaterial da herança arqueológica, etnográfica, documental, literária e artística; na difusão e recuperação dos nossos costumes, da nossa história, da nossa música… Disse sim, não a Coimbra Cidade de Cultura, mas sim à Cultura na Cidade de Coimbra, cultivando a abertura a pesquisas sociológicas e etnográficas, fontes de identidade, desafiando os paradigmas elitistas a que Coimbra está tão associada.

Na vertente social da sua atividade, o seu genuíno altruísmo está bem patente. Viveu com a consciência de que cada dia é uma dádiva mas não guardou esses dias como coisa sua, antes fez do seu tempo uma generosa e incansável oferta partilhando o seu saber e colocando as suas qualidades ao serviço do bem comum como está patente na significativa obra que deixa na Previdência Portuguesa.

“Transportava alegria e entusiasmo para os projetos que abraçava”, sabia trabalhar em equipa, motivando, valorizando e dando aos que com ele colaboravam toda a liberdade, todas as oportunidades de efetuarem o seu progresso material, intelectual e o seu desenvolvimento profissional com dignidade, respeitando a sua individualidade e as suas capacidades.

Nota-se nas inúmeras notas preambulares que escreveu o realce do trabalho de outros, que sempre agradece “ penhoradamente”. Não se vangloria, não se orgulha, não maltrata, não inveja, não guarda rancor, olha para o interesse público, o interesse da comunidade, antes do próprio interesse.

O seu apego a Coimbra não ofuscou uma particular devoção à terra e à gente do Espinhal onde a sua visão e ação deixaram, também, marca na preservação do património e na ação social.

Recordando John Donne, “a morte de qualquer ser humano diminui-me, porque faço parte da humanidade. E por isso não pergunto por quem os sinos dobram; eles dobram por mim”. De alguém tão amigo, por maioria de razão. Conquanto o pesar de todos pelo agora sucedido, a vida premiou-o. Viveu; até ao último minuto da sua vida. E, não vou dizer que Coimbra ficou mais pobre, porque o seu legado perdurará. A mim, deixou-me o exemplo e a inspiração do que é a ética, a responsabilidade e o exercício de cidadania aplicados a todas as vertentes das nossas curtas vidas.

Numa época em que os valores humanistas e a dimensão ética tanto nos inquietam, nós, conimbricenses, com destaque para a sua família, merecemos que o seu nome perdure na memória coletiva. Alguma rua ou praça “Mário Nunes”, na senda do dinamismo inspirador de George Steiner e da sua “ Ideia de Europa” – “as ruas, as praças calcorreadas pelas mulheres, crianças e homens europeus…verdadeiras câmaras de ressonância de feitos históricos, intelectuais …” culturais e humanistas, como foi o caso deste ser humano maravilhoso e cidadão exemplar.

One Comment

  1. M Conceição Rosa says:

    Lindo! E perfeitamente ajustado ao ser humano fantástico que foi a Figura do Senhor Dr. Mário Nunes, com quem tive o privilégio de privar de perto, nalguns inventos, onde nos honrava sempre com a sua presença.

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