Opinião – Muito acima das nossas possibilidades

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PAULO VALÉRIOPaulo Valério

Acordei já tarde (culpa do Santo António) para ouvir o discurso de Cavaco Silva no 10 de Junho. Quando liguei a televisão, o Presidente falava de agricultura, com aquele ar que só ele. Não sei se já repararam, mas Cavaco fala sempre como quem dá um veredicto, último e final. Depois dele, nem sol, nem madrugada, nem coisa alguma, porque não é homem que se inquiete com dúvidas, sabemos.

Pensava eu que a agricultura vinha naquela parte em que se agradece aos anfitriões com rodriguinhos antropológicos, mas, lentamente (muito), fui percebendo que não. E, entre uma torrada e um café, lá o fui ouvindo, naquela cadência engasgada que lhe deve ter ficado do episódio do bolo-rei, a ensinar aos simples a trajectória gloriosa da agricultura nacional. Por A+B, o Presidente esmagou a teoria ignorante de que Portugal desprezou a agricultura para se acomodar na CEE.

Em pleno Alentejo, esse farol da economia nacional – precisamente, graças à agricultura – impunha-se um discurso assim. E eu já estou a imaginar os próximos 10 de Junho. Por exemplo, podemos fazer um no Vale do Ave e celebrar a liderança do têxtil português; e outro em Viana do Castelo, sim, nos Estaleiros, para que o Mundo se ajoelhe aos pés da nossa indústria naval. E depois, podemos todos abandonar o banho diário, pentear o cabelo para a frente da testa e ir correr nús para o meio da rua. No espaço de dois, três anos, por este caminho, já ninguém achará isso estranho.

Pedro Adão e Silva dizia no seu comentário ao discurso do 10 de Junho que é triste olharmos em redor, na actual fase do país e sentirmos que não podemos contar com nenhum dos nossos recursos institucionais. Concordo com ele e, no fundo, também concordo com os Cavacos desta vida – é incontroverso que os portugueses têm vivido muito acima das suas possibilidades, designadamente, se considerarmos o ridículo da política nacional.

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